Épico e aquático – Canção animal

A maldição está desfeita? Agora que Helga se vê livre, o que deve acontecer aos Desafiantes de Yuvalin em sua jornada? Como encontrarão o que precisam? Confira neste novo capítulo do diário da sereia druida, Helga Iris.


Acordei num susto, respirando fundo. Arfando. Como se estivesse me afogando. OK. Eu não me afogo. Mas eu imagino que seja assim com não híbridos aquáticos. Eu estava viva e isso bastava.

Ainda deitada, enquanto me recompunha, Toshinori trouxe o coração esmagado, dizendo para eu levar ao Goro para que ele tivesse uma prova física de que meu coração era dele. Com dificuldade, fiz questão de lembrá-lo de que aquele coração não era meu e sim da mulher do meu pai. Então, ele lançou o esmigalhado longe.

O paladino deve ter ficado tão contente com a minha sobrevivência e o resultado final do ritual que se esqueceu por completo que tínhamos juntado dinheiro para que ele e Edward recebessem a bênção de Kallyadranoch. Como ainda me recuperava, ele, simplesmente, me pegou no colo e foi andando, como que indo embora do templo.

Então, eu mesma o perguntei se ele não iria fazer o tal ritual esquisito deles para ganhar a bênção do deus dragão. Stefan ficou revoltado que tinha dado dinheiro à toa para que o rito acontecesse.

Toshinori se voltou para o clérigo e perguntou quanto tempo levaria para concluir, ao que o homem pediu apenas que eles beijassem o anel com o símbolo de Kally que estava em um de seus dedos da mão direita. Edward passou correndo por nós e começou a beijar o anel. Deu, pelo menos, uns 5 beijos na mão do clérigo.

Já Toshinori ficou com um certo receio. Não sei se era algo contra seus dogmas de liberdade, mas ele fez uma cara de quem não queria se subordinar àquilo com um toque considerável de resistência. Quando fez que ia beijar o anel na mão do clérigo, o último respondeu que era para que ele fizesse isso de joelhos. Uma humilhação maior ainda. Mas, bom. Era Kallyadranoch, não é? O que ele esperava?

Ele me deixou novamente no chão, se ajoelhou e beijou a mão do clérigo com um certo nojo. O homem os abençoou com uma de suas mãos. Então, eu me levantei, com certa dificuldade, e agradeci profundamente a todos. Fiz reverências ao clérigo, que amou, é claro. Como um bom devoto do dragão. Abracei os membros do grupo e agradeci por não me deixarem para trás.

Decidimos regressar. Era óbvio que eu queria voltar para encontrar meu pai antes de irmos para Ermo Esquecido outra vez ver o barão. Stefan queria que eu procurasse pelo Climber, o burrinho que trouxe as nossas coisas até o vilarejo. Bom, eu continuei procurando por algum animal do lado de fora, assim como durante quase todo o nosso encontro com a necromante e o Oni.

Cantarolei uma canção, uma que minha mãe Silena costuma cantar quando saía pela mata procurando ajuda de um animal para resolver alguma questão. Daí umas rolinhas se aproximaram de mim e continuaram a minha canção. Comecei a conversar com elas, pedindo que elas encontrassem o Climber e nossas carroças. Expliquei como eram o burro e os cavalos e disse que eles deveriam nos encontrar ali em frente ao templo.

Sugeri ao grupo que fôssemos até à cabana do meu pai para descansar e retornar de manhã, quando os pássaros deveriam retornar. Todos concordaram que era uma boa ideia e fomos caminhando.

Quando vi fumaça na direção da cabana, comecei a correr como uma louca. Precisava ver se estava tudo bem. Se havia fumaça, algo poderia ter acontecido ao meu pai e ao corpo de Cassandra.

Ao me aproximar, vi uma pira e meu pai estava logo à frente. Ele me viu e, com seu modo imponente, tirou a espada que estava fincada no chão e a embainhou. Ele nos falou que sabia que tivemos sucesso porque nenhum zumbi ou mercenário tinha aparecido por ali.

Eu confirmei, dizendo que a maldição fora quebrada. Foi então que olhei melhor e entendi que a pira era mortuária. Ele tinha levado a cúpula para fora da cabana e estava fazendo o funeral de sua amada. Nos disse, com ar melancólico, que ela sempre sonhara em conhecer as Uivantes e que seria mais fácil levar suas cinzas que seu corpo.

Fiquei junto dele, contemplando a pira. Eu disse que a nossa casa era próxima às Montanhas Uivantes e que poderíamos ir juntos. Pedi permissão para que repousássemos ali naquela noite, a fim de continuar nossa longa jornada no dia seguinte. Ele me lembrou de que nos ajudaria no que fosse em nosso caminho, que estava disposto. Brincou até para que eu o sagrasse um membro dos Desafiantes de Yuvalin. Não aceitei a espada para fazer isso, é claro. Corríamos o risco de eu perder meu pai outra vez, arrancando sua cabeça, dada minha grande habilidade com armas.

Quando a pira se apagou, fomos para a cabana em silêncio. Meu pai se limitou apenas a dizer que ficaria de vigia aquela noite, para que pudéssemos descansar tranquilos. Antes de dormir, porém, fui a um canto ao lado da cabana e fiz uma prece a Allihanna. Queria agradecê-la por me conservar viva. Ao redor da cabana, deixei sementes, as últimas que ainda tinha dentro da bolsa das que distribuía em Yuvalin.

A bênção da deusa me acompanhou em toda a minha jornada até aquele momento e eu era grata. Na manhã seguinte, minha bolsa estava cheia de sementes novamente. Aquiesci com o coração quentinho. Meu próprio coração. Ninguém notou o que acontecera e eu também não disse a ninguém. Apenas aceitei feliz.

Meu pai entrou pela porta com um pequeno baú, enquanto nos preparávamos para partir. Já tínhamos compartilhado nosso desjejum e tudo estava arrumado. Deixei a cabana e comecei a cantar mais uma vez, com a mesma música, tentando chamar os mesmos pássaros e saber se haviam cumprido sua missão. Sei que tinha combinado em frente ao templo, mas, se eles me ouvissem e compreendessem meu chamado, não faria diferença alguma o local do encontro.

As rolinhas retornaram, respondendo aos meus versos. Joseph tocava enquanto eu cantava, acho que isso ajudou. Elas encontraram o Climber, me deram a descrição inconfundível de um burro de barba rosa. Mas relataram que ele estava sozinho. Não viram nem cavalos e nem carroças junto dele. Ele estava só próximo a um vilarejo que, pela descrição, era mesmo Ermo Esquecido.

Pássaros que contam histórias

Agradeci às rolinhas oferecendo algumas das sementes novas. Elas comeram e agradeceram também, com um gesto de suas asas sobre a cabeça. Quando relatei ao grupo o que soube, Toshinori pareceu meio desesperado. Eu também não gostei nada da notícia. Disse, então, que tínhamos um destino: precisávamos retornar a Ermo Esquecido. Como prova, pelo menos, da nossa andança, tínhamos meu pai em osso e rosas, mesmo que não trouxéssemos qualquer urna da cripta.

O trajeto de volta foi longo, aproveitei o tempo para conversar com meu pai. Ah, eu estava tão feliz por tê-lo agora comigo! Imaginava que o barão Lazam também gostaria de saber que ele estava vivo. Talvez, só não seria muito interessante o fato de “vivo” significar “na forma de um osteon”. Meu pai se cobriu com uma capa com capuz para evitar olhares.

Chegamos por um lugar diferente, uma plantação, de onde vinha o sustento do povoado, provavelmente. Já próximos ao palacete do barão, avistamos Climber e fomos até ele. Ele estava sozinho e com um olho roxo. Joseph ficou chocado e começou a fazer carinho no burrinho de cabelos e barba rosa perguntando o que havia acontecido.

Climber me contou, então, que eles foram roubados por bandoleiros da estrada. Disse que lutou, coiceou, mas que, quando viu armas, ele fugiu. Mas fugiu sem seus parceiros cavalos e as carroças, voltando para o vilarejo, onde se sentiu mais seguro. Fiz carinho nele e cuidei de seus ferimentos. Expliquei o que tinha acontecido ao grupo com um grande pesar. As notícias não eram boas, realmente.

Sabíamos, pelo menos, que no palacete do barão Lazam seríamos bem tratados e poderíamos nos recompor antes de continuar a caminhada para a capital. Bom, era o que eu esperava com muita fé.


Assista ao vídeo sobre essa parte da história no canal do Qual é a do RPG?https://youtu.be/liMMQEB7PuY

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Até breve!

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