Épico e aquático – A cidade barulhenta

Helga e os Desafiantes têm um desafio enorme: atravessar Valkaria. Nem eles têm noção da bagunça que pode ser isso. Mas eles têm uma missão, é bom sempre lembrar isso.


Nós fomos tapeados – para variar. Era meio óbvio que em Valkaria isso aconteceria. Me surpreendo, na verdade, por ter sido tão pouco. Dado o nosso histórico, qual a chance de não sermos tapeados, pelo menos, umas 200 vezes em apenas um dia?

Dessa vez, foram crianças. Quem suspeitaria? Tanta gente se esbarrando em mim e em todos nós, só senti minha mochila ficando mais leve, moedas estalando no chão e crianças correndo e gritando. Perdemos valores consideráveis, no entanto, era praticamente impossível alcançar os ladrões com aquela quantidade absurda de gente que eu nunca tinha visto em toda a minha vida.

O bairro Mercado da barulhenta Valkaria

Kroll e Joseph tentaram correr atrás dessas crianças benditas, mas sem muito sucesso. Ainda demorou um tempão até nos encontrarmos outra vez. Consegui colocar o pessoal de volta ao cercadinho na loja Império Bélico. Tive uma leve discussão com Stefan, também para não perder o costume, sobre as razões de ir para aquela loja e sobre nos separarmos no Mercado. Como sempre, Stefan sabendo ser bem insuportável. Ele disse querer itens, mas foi direto ao ponto quando perguntou sobre o leilão em Aslothia.

O anão ferreiro da loja não fazia ideia e não queria saber qualquer coisa sobre aquele lugar. Aproveitei para perguntar se, mesmo que ele não fizesse negócios por aquelas bandas, alguém que ele conhecia faria. O anão respondeu que um longo passeio pelo Mercado nos faria conhecer. Isso não ajudou muito.

O que não ajudou muito também foi Toshinori querendo empurrar as pedras de aço-rubi para o anão. Stefan, ainda, conseguiu ofendê-lo com a menção de que Zakharov estaria mais evoluída que o nosso anfitrião. O anão se sentiu desafiado a mostrar suas belezuras a todo o grupo e eu tentava, sem sucesso, fazer os meninos focarem na nossa missão. Não fazíamos ideia de quando aconteceria o leilão, então, não podíamos mais perder tempo.

O arsenal era, realmente, diferenciado. Fiz questão de lembrá-los sobre a total responsabilidade deles em recuperar suas armas, caso perdessem. Ainda mais sem dinheiro, depois do causo com as crianças. Joseph, inclusive, estava do lado de fora, tocando e cantando para tentar recuperar algum valor.

Nos encaminhamos para uma taverna, a Boca Cheia. Jantamos juntos e, antes de eu me alojar em algum canto, passeei por uma praça próxima, a fim de encontrar algum pássaro que pudesse levar mais uma carta para Goro. Queria contar brevemente sobre as últimas notícias: o encontro com meu pai e nossa chegada a Valkaria.

Com tantas pessoas mendigando comida nas praças, eu tive medo de dormir ao relento e precisei fazer crescer árvores frutíferas para que essas pessoas não avançassem em mim. Encontrei um pombo que me pediu apenas grãos para fazer o serviço e enviei a carta. Mas confesso que descansei um grande nada na taverna. Pensei em dormir no telhado, mas o taverneiro não deixaria. Muito barulho do lado de fora, aquela cidade nunca dormia. Me senti como se estivesse tentando dormir abraçada à forja central de Yuvalin.

Com saudade do quarto do Goro, de manhã, apesar das grandes olheiras que eu tinha no rosto, os meninos pareciam ter dormido como reis. Acredite se quiser, foi Stefan quem pagou a estadia de todos. Após o café da manhã, saímos novamente para aquela muvuca desenfreada, para chegarmos à casa dos pais de Toshinori.


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Até breve!

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Épico e aquático – A cidade sob a deusa

Depois do susto, é hora de seguir viagem. Os Desafiantes de Yuvalin têm um longo caminho pela frente e a Helga tem um mundo todo desconhecido para descobrir.


Começamos nossa viagem em direção à cidade sob a deusa, Valkaria. Climber, o burro, me convidou, depois de um tempo, para seguir viagem sobre seus lombos. O pequeno Joseph, com suas perninhas cansadas, já estava montado há alguns quilômetros e, confesso, eu estava tão cansada que decidi aceitar. Não é muito do meu feitio fazer esse tipo de coisa, a não ser em situações extremamente necessárias.

Não demorou muito para que ele ficasse cansado, coitado. Descemos e eu cuidei dele, enquanto andávamos: fiz carinho, dei água e comida, conversei com ele. Depois de muitas subidas e descidas, avistamos uma grande mão e, quanto mais andávamos, mais a estátua de Valkaria tomava forma.

Sobre uma colina, era uma visão completamente diferente de tudo o que eu conhecia. A vista de cima de uma cidade muito maior era espetacular. Villent, Zakharin e Yuvalin, por maior que fossem, nunca se comparariam à grandiosidade daquela megalópole à nossa frente. Tudo era tão cheio, tão grande, tão desorganizadamente organizado, barulhento.

A cidade de Valkaria

Em uma descida, Toshinori, que cresceu em Valkaria, quis se exibir para nós, nos mostrando do que era feita a cidade. Bom, pelo que ele apresentou, adultos costumam quebrar carrinhos de madeira de crianças. Mais uma vergonha alheia que os Desafiantes me fazem passar em público. Já estou acostumada. Joseph quis fazer o mesmo, mas não quebrou o carrinho, apenas desceu a toda velocidade o morrinho em pé sobre o carro de madeira. As crianças amaram o bardo de cabelo rosa.

A cidade abrigava gente de todos os jeitos, etnias e raças. Algumas, eu só vira em imagens nos livros da escola em Villent. Tive que pedir para que os meninos focassem na missão, porque, quando passamos pelo estabelecimento Lua Incandescente, as sulfures, as sílfides, goblinoides, mulheres com curvas à mostra, começavam a se insinuar para eles.

O paladino falou que estava, na verdade, esperando encontrar uma outra goblinoide, que, talvez, ele tenha deixado sem avisar em Valkaria. Então, eu consegui convencer a todos a seguirmos pela cidade, de acordo com o plano. Foi nesse momento que tivemos uma grande revelação sobre Toshinori. Algo que nunca nem imaginávamos. Além de ele nos contar que tinha pai e mãe vivos, ele nos levaria até a casa deles para descansarmos. Ficamos chocados.

Depois de todo esse tempo juntos, eu me dei conta de que ainda conhecia bem pouco sobre meus companheiros. No nosso ramo de trabalho, precisamos confiar quase cegamente uns nos outros. Eles me protegem e eu cuido deles, isso basta. Entretanto, conhecê-los um pouco mais era bom. Então, enfim, nos tornávamos amigos.

Eu realmente estava muito assustada com todo aquele movimento, tanta gente indo e vindo, tanto barulho e cacofonias. Tudo isso, enquanto nem tínhamos entrado pelas muralhas da cidade. Os guardas fizeram pouco de quem éramos, de onde vinhamos e para onde íamos. De repente, estávamos vivendo aquilo: entramos em Valkaria.

Entramos no bairro da Cidade da Praia, seguindo Toshinori, que era quem conhecia o local. Como percebi que logo alguém ia querer fuxicar pela cidade e tentar descobrir tudo o que ela poderia oferecer a nós, principalmente o Stefan, fiz crescer algumas plantas que davam umas fibras bem fortes e juntei-as em uma corda, formando uma espécie de cercado para que todos andássemos juntos. Conhecendo meus amigos como eu conhecia, todo cuidado era pouco e quem se comporta como criança, às vezes, deve ser tratado como criança.

Falei logo de Stefan porque ele foi o primeiro a querer ir conhecer os druidas da Cidade da Praia. Eu briguei com ele para que ele não saísse do cercadinho e fiquei me questionando o que algas ele queria com aqueles caras. Até o Toshinori desaconselhou o inventor a ir tentar conversar com os druidas, disse que eram estranhos. Faço ideia do que ele quis dizer com isso.

Enquanto discutíamos, um hynne em uma carroça nos interpelou, dizendo que nos levaria a qualquer lugar por um valor. Só não nos disse o valor. Disse que, sabendo para onde seria, diria o valor. Nem deu tempo do moço responder quando Toshinori falou sobre a fazenda dos pais. Subitamente, parece que todos os carroceiros de Arton estavam gritando ao nosso redor que fariam o menor preço para nos levar ao nosso destino. Parecia uma feira, ou até mesmo um leilão.

O caos estava instaurado. Não conseguíamos nos desvencilhar de forma alguma daquela loucura. Devia ser pior que a mente do Stefan. Foi, então, que eu me distraí com o assunto dos burros, cavalos e trobos, fiquei conversando com eles sobre a cidade, sobre de onde eles tinham vindo, sobre o trabalho deles. Eles disseram que o trabalho era bom, davam comida boa.

Não sei exatamente o que Edward fez, mas ele conseguiu puxar a gente para fora daquele burburinho. A bagunça e gritaria ficou para trás. Aos poucos, a Cidade da Praia também ficou para trás e entramos no bairro Recomeço. Era um lugar pomposo, as luzes acendiam magicamente nos postes. Casas nobres, mansões, ladrilho. Apesar disso, as pessoas ainda eram bem diversas, não tendo apenas nobres no lugar.

Eu estava encantada com tudo aquilo. Era muito mais do que os lugares mais nobres de Yuvalin. Era lindo. Todos se vestiam tão bem. Nós vestíamos, praticamente, trapos. Aos poucos, isso começou a despertar o interesse de soldados. Eles começaram a fazer perguntas, nos revistar e a nos conduzir em direção ao Mercado.

Um senhor parou Joseph no meio do caminho prometendo torná-lo rico e famoso. O moço maltrapilho disse que ele era perfeito para uma peça. O pobre bardo já começou a sonhar e a murmurar sobre dinheiro e mulheres e iates – eu nem sei o que é um iate, imagino que nem ele. Olhei mais atentamente para o velhinho e vi suas mãos mexendo suavemente, como que conjurando uma magia arcana.

Respirei fundo e pedi por um milagre a Allihanna. Precisei dar alguns tapas na cabeça e nas costas do Joseph para que ele despertasse do torpor. O moço jurava que não estava enganando, obviamente, que queria aquele galã como principal na peça. Até olhei ao redor para verificar se havia alguém bonito por perto. Todos tentamos ajudar o bardo a desacreditar o velho, até Stefan puxou a arma e ameaçou o senhor. Não tentei impedir o inventor, mas parei para perceber se alguém fora do nosso cercadinho tinha notado aquilo.

Finalmente, conseguimos arrastar Joseph para fora daquele golpe óbvio em formato de peça super famosa. Tiramos o velho do nosso encalço e rumamos para o bairro do Mercado. Quase fiquei surda com o barulho que nos recebeu.

Se nos outros bairros tudo já era muito barulhento, ali, eu fiquei tonta com a baforada quente da multidão e toda aquela vozearia. Barraquinhas, lojas, gente anunciando produtos, tavernas. O cheiro da cidade estava se impregnando nas nossas roupas, eu estava assustada e ainda bem que eu tinha feito o tal cercadinho, do contrário teria me perdido.

Toshinori estava confiante, por outro lado. Ignorava os vendedores e pedintes. Eu estava crente que ele já estava nos levando em direção à fazenda dos seus pais, mas ele, simplesmente, entrou em uma loja de licores, beijou a careca do vendedor e nos ofereceu uma dose. Além de, é claro, cantar e dançar com os bêbados caídos na entrada da loja.

Como eu não estava acostumada com licores, cheirei o copinho, o perfume doce, além do álcool. Era bom. Eu tomei e achei uma delícia. Distraída, não notei que Stefan derramou a bebida e, como consequência, tomou foi um soco na cabeça do vendedor, para ele aprender a não desperdiçar o que é dado de graça. Toshinori ficou revoltado. Eu, é claro, como já conhecia meu grupo, fingi apenas que não era comigo e continuei tomando meu licorzinho em paz.

O inventor louco, de forma instintiva, ignorou o que quer que tenha acontecido ali na loja, apesar da dor, e só saiu andando pelo mercado. Eu tive que correr para acompanhá-lo e, ainda, arrastar todo mundo para que não nos perdêssemos. Não quero nem imaginar o que seria de nós se qualquer um dos Desafiantes de Yuvalin se perdesse no meio do Mercado de Valkaria.


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Qual é a das quintas? entrevista: Igor Pires

Durante a 9ª Festa Literária Internacional de Maricá, que você pode ler sobre minhas experiências clicando no link do post aqui, tive a incrível oportunidade de conversar com vários autores. Entre eles, bati um papo com Igor Pires, autor de Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente e Todas as coisas que eu te escreveria se pudesse, sobre sua vida e sua obra.

Você vai conferir um resumo aqui, mas já aviso logo que essa entrevista já está disponível na íntegra no Qual é a dos podcasts?.

Igor Pires, autor

Aline Gomes – Qual é a das quintas?
Qual é a sua maior inspiração para escrever?

Igor Pires
Eu acho que minha maior inspiração são as pessoas. Sou apaixonado por pessoas. E isso é muito engraçado, porque eu amo, por exemplo, ir pros lugares e conversar com pessoas desconhecidas e perguntar da vida, da história da pessoa, o que as motiva, sabe? E acho que eu sempre tive esse senso e esse instinto de querer conhecer mais as pessoas. É muito sobre mim, mas também é muito sobre a experiência humana que é estar nesse mundo, sentindo muitas coisas e vivendo muitas coisas. Eu acho que, obviamente, a história da minha família, dos meus pais, das pessoas ao meu redor, do que eu observo de suas vidas, acaba se tornando fonte de inspiração pra mim, pra eu escrever o meu trabalho. Mas eu acho que tudo me inspira.

Aline Gomes – Qual é a das quintas?

Como você vê o seu público interagindo com a sua obra? Você é um influenciador. Várias pessoas, eu imagino, que devam admirar o seu trabalho e também interagir com você. Como é essa troca que você tem com as pessoas?

Igor Pires

Escrever um livro é um processo bastante solitário, porque é um lugar onde você tem que mergulhar em você mesmo muitas e muitas vezes, e, às vezes, são mergulhos muito profundos. Você acaba, às vezes, perdendo de vista o mundo ao seu redor. Eu acho que a pandemia também trouxe esse aspecto de fazer com que as pessoas fiquem cada vez mais em casa, às vezes mais reclusas. Quando eu fui pra Bienal e quando eu saio para fazer eventos que eu vejo que as pessoas estão lá e que as pessoas, realmente, vêm me ver, elas querem um autógrafo, elas querem conversar, eu fico espantado. Porque é você sair de um lugar de solidão para ir a um lugar onde muitas pessoas sentem a mesma coisa que você. Óbvio, não sentem a mesma coisa, mas sentem a mesma sensação. Isso me enche de orgulho. Eu escrevo porque eu tento curar o mundo, mas eu não consigo. Mas se eu mudar a vida de uma pessoa, acho que eu estou mudando o mundo.

Aline Gomes – Qual é a das quintas?

Como é pra você estar num evento como a Flim?

Igor Pires

Eu acho que é minha primeira Feira Literária Internacional e eu me senti muito honrado. Sei que, às vezes, eu duvido um pouco do meu trabalho. Então, percebi que as pessoas pensam em mim, gostam do meu trabalho. Eu acho que é sempre uma realização pessoal, uma realização profissional. E eu estou amando. Estou sendo super bem tratado. As meninas disseram que tem bastante gente pra me ver, não pra me ver, mas pra acompanhar a mesa. E acho que é um baita privilégio.

Aline Gomes – Qual é a das quintas?

E é um prazer estar conversando aqui com você! Que conselho que você daria para as pessoas, tanto que te leem, quanto as que querem continuar seguindo seu trabalho, continuar fazendo o seu próprio trabalho, continuar sonhando e vivendo as emoções que você expõe, todos esses temas que realmente são importantes serem tratados e que, muitas vezes, não é dado o devido valor?

Igor Pires

Vou dar um conselho que eu acho que é não só pra quem quer escrever, quem quer entrar nesse mercado, mas pra vida. Caminha que seus caminhos se abrem. Eu falo: “escreva, comece”. Porque a gente está sempre assim “é tarde para começar”. Comece agora! Caminhe, dê o primeiro passo. Acho que é isso.

Sobre o autor

De acordo com sua assessoria, Igor Pires possui uma coletânea de seis livros e, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos e considerado o autor mais lido em 2020, sua publicação mais recente é Este é um corpo que cai mas continua dançando, que figura entre os mais vendidos de ficção no Brasil.

Igor Pires é escritor, publicitário e criador do projeto Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente. Começou escrevendo textos para a internet ainda na adolescência e, nos últimos anos, criou uma comunidade fervorosa de leitores amantes da poesia e da literatura jovem. Nascido e criado na periferia de Guarulhos, se formou em Publicidade e Propaganda, onde descobriu sua paixão pela comunicação e pelas redes sociais.

Primeiro final de semana da Flim 2024 entrega experiências memoráveis

Gosto muito de uma frase que li esses dias, tanto que coloquei no meu site profissional e nos marcadores de livros que levei para a Flim: “Imaginamos o que não existe para criar o que sonhamos” (autor desconhecido). A 9ª Festa Literária Internacional de Maricá me trouxe para esse lugar de sonhar e imaginar, e não podia ser diferente quando o homenageado era ninguém mais e ninguém menos que Ziraldo.

“Ziraldo era um especialista em infância (…) e o maior artista plástico do Brasil” (Aroeira).

Ziraldo, homenageado da Festa

Infelizmente, só consegui participar mesmo do primeiro final de semana da Festa, mas trago aqui algumas das minhas descobertas e um (nem tão) breve resumo de como foi a experiência.

Para quem não conhece, a Flim é produzida pela Prefeitura de Maricá, é totalmente gratuita e com incentivos das secretarias de Educação e Cultura. Os alunos da rede pública e de programas, como o Passaporte Universitário, recebem vouchers para comprar livros. Além disso, outras secretarias municipais participam com instrução e serviços aos munícipes e visitantes.

A programação deste ano trouxe nomes excepcionais e eu tive a oportunidade, também, de conversar com algumas autoras moradoras de Maricá. A Laura Costa, por exemplo, foi secretária de educação na década de 1990 e trouxe Ziraldo para a Bienal do Livro na cidade. Para ela, que escreveu dois livros, o evento é uma ótima oportunidade para difundir a leitura na população, uma vez que Maricá não possui livrarias, apenas bibliotecas públicas nas escolas.

Essas autoras me contaram sobre o sonho de escrever, como chegaram a publicar e, além disso, as temáticas que envolvem seus trabalhos, sempre trazendo a importância de falar sobre assuntos que precisam ser mais difundidos, inclusive, na infância. Joselene Negra Black fala em poesias, contos e crônicas sobre inclusão e representatividade da mulher, do negro e TEA. Ana Luísa Magalhães estava extremamente feliz por participar da Flim e ofertar seus livros de poesia sobre mulheres e para mulheres, e um infantil que é inspirado em sua própria filha.

Luciana Pinheiro, Liliane Mesquita e Danielle Viana me contaram sobre suas lindas trajetórias no mundo da escrita, tendo o estar na Flim vendendo seus livros a realização de um sonho. Elas abordam em suas produções a fome, a pobreza, o abuso sexual infantil, educação parental e dicas para viver nos dias atuais.

A autora Andreia Prestes esteve em uma roda de conversa junto com o professor e doutor Celso Vasconcellos, quando falaram sobre a importância de resgatar a memória familiar e identidade coletiva. Dentre os assuntos tratados no encontro, destaco a necessidade de manter a memória da população acesa e a apresentação para a criança e o jovem daquilo que ainda não é difundido, a abertura para todos os temas. Andreia, por exemplo, é autora do livro infantil “Era uma vez um quintal”, em que conta sobre João Massena Melo, seu avô, que, um dia, saiu de casa para uma reunião e desapareceu durante a ditadura militar.

Andreia Prestes, José de Abreu e Celso Vasconcellos

Paulinho Moska e Lenine estiveram no palco do Papo Flim, conversando com Maurício Pacheco. Eles falaram sobre como a música tem o poder de contar histórias e como a poesia e as regionalidades são protagonistas dos seus trabalhos. Os dois destacaram a importância de ir além da rima pela própria rima, entregando sentido às letras e à musicalidade. Não preciso nem falar dos shows de Sandra Sá e Lenine que foram incríveis no palco, não é?

A linda homenagem a Ziraldo contou com uma roda de conversa que trouxe outros grandes nomes do chargismo e desenho brasileiros: Aroeira e Miguel Paiva. Adriana Lins (sobrinha e presidente do Instituto Ziraldo), conversou com os cartunistas e Laura Costa sobre a influência do homenageado em suas obras e eles contaram várias histórias divertidas e emocionantes sobre seu relacionamento com o escritor. Miguel e Aroeira, por exemplo, levavam seus desenhos para a avaliação de Ziraldo, que amava trabalhar em grupo e, basicamente, inventou o design gráfico no Brasil.

“Da mesma forma como a gente não se esquece de Shakespeare, (…) não vamos nos esquecer de Ziraldo” (Aroeira).

Laura Costa, Adriana Lins, Miguel Paiva e Aroeira

Confesso que eu fiquei tão maravilhada durante a roda de conversa entre Igor Pires, Thalita Rebouças, Felipe Fagundes, Andressa Santos e Tuca Andrada que nem consegui anotar nada. Meus olhos brilhavam! O bate-papo super leve e descontraído revelou como os autores se relacionam com a escrita e com o público, além de ressaltar a relevância dos temas tratados por eles nos contextos familiares e da adolescência e juventude. Em breve, vou contar para vocês sobre a entrevista exclusiva que fiz com Igor Pires.

Igor Pires, Andressa Santos, Felipe Fagundes, Thalita Rebouças e Tuca Andrada

A Festa Literária Internacional de Maricá continua até dia 10 de novembro, na Orla do Parque Nanci, com a presença de Roberta Sá, Vanessa da Mata, MV Bill, Geraldo Azevedo e muitos outros grandes nomes.

Se eu pudesse resumir meu primeiro final de semana de Flim, seria exatamente isso: desejo renovado por ler mais e me dedicar mais à escrita. Claro que foi super cansativo, mas extremamente recompensador. Foi uma oportunidade ímpar de estar próxima a pessoas que amam ler e escrever e que foram resgatadas pelo poder que a palavra tem.