Épico e aquático – A cidade sob a deusa

Depois do susto, é hora de seguir viagem. Os Desafiantes de Yuvalin têm um longo caminho pela frente e a Helga tem um mundo todo desconhecido para descobrir.


Começamos nossa viagem em direção à cidade sob a deusa, Valkaria. Climber, o burro, me convidou, depois de um tempo, para seguir viagem sobre seus lombos. O pequeno Joseph, com suas perninhas cansadas, já estava montado há alguns quilômetros e, confesso, eu estava tão cansada que decidi aceitar. Não é muito do meu feitio fazer esse tipo de coisa, a não ser em situações extremamente necessárias.

Não demorou muito para que ele ficasse cansado, coitado. Descemos e eu cuidei dele, enquanto andávamos: fiz carinho, dei água e comida, conversei com ele. Depois de muitas subidas e descidas, avistamos uma grande mão e, quanto mais andávamos, mais a estátua de Valkaria tomava forma.

Sobre uma colina, era uma visão completamente diferente de tudo o que eu conhecia. A vista de cima de uma cidade muito maior era espetacular. Villent, Zakharin e Yuvalin, por maior que fossem, nunca se comparariam à grandiosidade daquela megalópole à nossa frente. Tudo era tão cheio, tão grande, tão desorganizadamente organizado, barulhento.

A cidade de Valkaria

Em uma descida, Toshinori, que cresceu em Valkaria, quis se exibir para nós, nos mostrando do que era feita a cidade. Bom, pelo que ele apresentou, adultos costumam quebrar carrinhos de madeira de crianças. Mais uma vergonha alheia que os Desafiantes me fazem passar em público. Já estou acostumada. Joseph quis fazer o mesmo, mas não quebrou o carrinho, apenas desceu a toda velocidade o morrinho em pé sobre o carro de madeira. As crianças amaram o bardo de cabelo rosa.

A cidade abrigava gente de todos os jeitos, etnias e raças. Algumas, eu só vira em imagens nos livros da escola em Villent. Tive que pedir para que os meninos focassem na missão, porque, quando passamos pelo estabelecimento Lua Incandescente, as sulfures, as sílfides, goblinoides, mulheres com curvas à mostra, começavam a se insinuar para eles.

O paladino falou que estava, na verdade, esperando encontrar uma outra goblinoide, que, talvez, ele tenha deixado sem avisar em Valkaria. Então, eu consegui convencer a todos a seguirmos pela cidade, de acordo com o plano. Foi nesse momento que tivemos uma grande revelação sobre Toshinori. Algo que nunca nem imaginávamos. Além de ele nos contar que tinha pai e mãe vivos, ele nos levaria até a casa deles para descansarmos. Ficamos chocados.

Depois de todo esse tempo juntos, eu me dei conta de que ainda conhecia bem pouco sobre meus companheiros. No nosso ramo de trabalho, precisamos confiar quase cegamente uns nos outros. Eles me protegem e eu cuido deles, isso basta. Entretanto, conhecê-los um pouco mais era bom. Então, enfim, nos tornávamos amigos.

Eu realmente estava muito assustada com todo aquele movimento, tanta gente indo e vindo, tanto barulho e cacofonias. Tudo isso, enquanto nem tínhamos entrado pelas muralhas da cidade. Os guardas fizeram pouco de quem éramos, de onde vinhamos e para onde íamos. De repente, estávamos vivendo aquilo: entramos em Valkaria.

Entramos no bairro da Cidade da Praia, seguindo Toshinori, que era quem conhecia o local. Como percebi que logo alguém ia querer fuxicar pela cidade e tentar descobrir tudo o que ela poderia oferecer a nós, principalmente o Stefan, fiz crescer algumas plantas que davam umas fibras bem fortes e juntei-as em uma corda, formando uma espécie de cercado para que todos andássemos juntos. Conhecendo meus amigos como eu conhecia, todo cuidado era pouco e quem se comporta como criança, às vezes, deve ser tratado como criança.

Falei logo de Stefan porque ele foi o primeiro a querer ir conhecer os druidas da Cidade da Praia. Eu briguei com ele para que ele não saísse do cercadinho e fiquei me questionando o que algas ele queria com aqueles caras. Até o Toshinori desaconselhou o inventor a ir tentar conversar com os druidas, disse que eram estranhos. Faço ideia do que ele quis dizer com isso.

Enquanto discutíamos, um hynne em uma carroça nos interpelou, dizendo que nos levaria a qualquer lugar por um valor. Só não nos disse o valor. Disse que, sabendo para onde seria, diria o valor. Nem deu tempo do moço responder quando Toshinori falou sobre a fazenda dos pais. Subitamente, parece que todos os carroceiros de Arton estavam gritando ao nosso redor que fariam o menor preço para nos levar ao nosso destino. Parecia uma feira, ou até mesmo um leilão.

O caos estava instaurado. Não conseguíamos nos desvencilhar de forma alguma daquela loucura. Devia ser pior que a mente do Stefan. Foi, então, que eu me distraí com o assunto dos burros, cavalos e trobos, fiquei conversando com eles sobre a cidade, sobre de onde eles tinham vindo, sobre o trabalho deles. Eles disseram que o trabalho era bom, davam comida boa.

Não sei exatamente o que Edward fez, mas ele conseguiu puxar a gente para fora daquele burburinho. A bagunça e gritaria ficou para trás. Aos poucos, a Cidade da Praia também ficou para trás e entramos no bairro Recomeço. Era um lugar pomposo, as luzes acendiam magicamente nos postes. Casas nobres, mansões, ladrilho. Apesar disso, as pessoas ainda eram bem diversas, não tendo apenas nobres no lugar.

Eu estava encantada com tudo aquilo. Era muito mais do que os lugares mais nobres de Yuvalin. Era lindo. Todos se vestiam tão bem. Nós vestíamos, praticamente, trapos. Aos poucos, isso começou a despertar o interesse de soldados. Eles começaram a fazer perguntas, nos revistar e a nos conduzir em direção ao Mercado.

Um senhor parou Joseph no meio do caminho prometendo torná-lo rico e famoso. O moço maltrapilho disse que ele era perfeito para uma peça. O pobre bardo já começou a sonhar e a murmurar sobre dinheiro e mulheres e iates – eu nem sei o que é um iate, imagino que nem ele. Olhei mais atentamente para o velhinho e vi suas mãos mexendo suavemente, como que conjurando uma magia arcana.

Respirei fundo e pedi por um milagre a Allihanna. Precisei dar alguns tapas na cabeça e nas costas do Joseph para que ele despertasse do torpor. O moço jurava que não estava enganando, obviamente, que queria aquele galã como principal na peça. Até olhei ao redor para verificar se havia alguém bonito por perto. Todos tentamos ajudar o bardo a desacreditar o velho, até Stefan puxou a arma e ameaçou o senhor. Não tentei impedir o inventor, mas parei para perceber se alguém fora do nosso cercadinho tinha notado aquilo.

Finalmente, conseguimos arrastar Joseph para fora daquele golpe óbvio em formato de peça super famosa. Tiramos o velho do nosso encalço e rumamos para o bairro do Mercado. Quase fiquei surda com o barulho que nos recebeu.

Se nos outros bairros tudo já era muito barulhento, ali, eu fiquei tonta com a baforada quente da multidão e toda aquela vozearia. Barraquinhas, lojas, gente anunciando produtos, tavernas. O cheiro da cidade estava se impregnando nas nossas roupas, eu estava assustada e ainda bem que eu tinha feito o tal cercadinho, do contrário teria me perdido.

Toshinori estava confiante, por outro lado. Ignorava os vendedores e pedintes. Eu estava crente que ele já estava nos levando em direção à fazenda dos seus pais, mas ele, simplesmente, entrou em uma loja de licores, beijou a careca do vendedor e nos ofereceu uma dose. Além de, é claro, cantar e dançar com os bêbados caídos na entrada da loja.

Como eu não estava acostumada com licores, cheirei o copinho, o perfume doce, além do álcool. Era bom. Eu tomei e achei uma delícia. Distraída, não notei que Stefan derramou a bebida e, como consequência, tomou foi um soco na cabeça do vendedor, para ele aprender a não desperdiçar o que é dado de graça. Toshinori ficou revoltado. Eu, é claro, como já conhecia meu grupo, fingi apenas que não era comigo e continuei tomando meu licorzinho em paz.

O inventor louco, de forma instintiva, ignorou o que quer que tenha acontecido ali na loja, apesar da dor, e só saiu andando pelo mercado. Eu tive que correr para acompanhá-lo e, ainda, arrastar todo mundo para que não nos perdêssemos. Não quero nem imaginar o que seria de nós se qualquer um dos Desafiantes de Yuvalin se perdesse no meio do Mercado de Valkaria.


Assista ao vídeo sobre essa parte da história no canal do Qual é a do RPG?: https://youtu.be/tGEzr0s2uoE

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Até breve!

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