Ecos da Orla Interior

RPG rende histórias incríveis! Você já sabe disso se joga ou se apenas leu aqui o Épico e Aquático com as aventuras da sereia druida Helga Iris. E, se você acompanha o canal do Qual é a do RPG?, você também sabe que eu já mestrei algumas aventuras muito loucas e divertidas.

Recentemente, convenci uns amigos que nunca tinham jogado a montarmos uma mesa presencial. O resultado da nossa primeira aventura autoral nesse grupo é o conto que você vai ler a seguir. Espero que você se divirta tanto como nós.


Os corredores do Palácio Imperial pareciam estreitos nos intervalos das sessões de cúpula. O Secretário de Segurança e Defesa José Huyg se espremeu entre seus colegas do Conselho para conseguir passar e alcançar o Imperador Jong. Seu semblante era tão preocupado que o Imperador se assustou e pediu licença a outro conselheiro com quem conversava para chamar José ao seu gabinete.

Sentados um de frente para o outro, José revelou toda a sua inquietação. Ele não esperou o Imperador terminar de ler a carta e contou que um planeta da Orla Interior do Império, Arokk, teria sido atacado por uma praga que dizimou a população. Ninguém sabia ainda qual a origem da praga, do que se tratava, apenas que não havia mais sinais da população vindos de lá.

Como um bom secretário, trouxe o problema junto com uma solução plausível: sob a aprovação do Imperador Jong, ele contataria seu melhor gestor de assuntos especiais e secretos para enviar uma equipe até Arokk e, não apenas descobrir o que aconteceu, mas resolver o problema. Jong concordou. Não queria que o assunto se espalhasse para não gerar pânico. Também não queria que a praga se espalhasse, então, pediu cuidado redobrado.

Naquela mesma noite, o Secretário José se encontrou com o senhor Ohm, líder da agência ultra secreta Olho do Infinito, localizada dentro de uma estação de spa flutuante num lugar qualquer da galáxia. Aquele senhorzinho simpático, de olhos puxados, era mais ágil do que qualquer um podia imaginar. Imediatamente após receber ordens, começou a organizar seus melhores agentes. Por um infortúnio do destino, todos eles estavam extremamente ocupados em outras missões muito necessárias.

Lembrou-se, então, de alguns jovens promissores que ouviu falar tempos atrás e decidiu testá-los para enviar a essa missão posteriormente. Antes, porém, de chegar a Lagum para encontrar Krýus Ákro do Clã dos Olhos Azuis, levou sua nave até à principal oficina de naves da galáxia para pequenos reparos. Quando, finalmente, retornou à agência, deparou-se com um grande urso que conseguiu adentrar à nave sorrateiramente. Isso poderia ser útil.

Krýus Ákro do Clã dos Olhos Azuis

O senhor Ohm reuniu-se individualmente com cada recruta para verificar suas habilidades. Eles eram péssimos. Mas não havia muito tempo, tinha que servir. Por um tempo que os recrutas não conseguiam contar isolados em uma arena separada para eles, Ohm os manteve treinando até a hora de partir.

Quando tudo já estava pronto para a missão, Luke, Kryos, Ringo, Melkor, Onok e o urso (cujo nome foi inexplicavelmente esquecido) encontraram-se na base secreta da organização Olho do Infinito. O enigmático e sereno senhor Ohm lhes apresentou uma missão urgente: o planeta Arokk, localizado na orla interior da galáxia, havia sido dizimado por uma misteriosa doença.

O objetivo era claro: investigar o que aconteceu e impedir que a ameaça se espalhasse. Cada agente recebeu 30 pings, a moeda oficial do Império, para aquisição de equipamentos e embarcou na nave Estrela do Entardecer, comandada por Drooz, um piloto androide poético e filosófico.

A viagem atravessou uma zona de dobra conhecida como Mente de Morgoo, um espaço psicodélico onde formas, linhas e cores se distorciam em padrões quase vivos. Alguns dos agentes foram afetados por alucinações sutis, mas rapidamente se recuperaram. Os demais, que não experimentaram os efeitos, não compreenderam o que havia acontecido, gerando tensão e incerteza.

Ao chegarem a Arokk, depararam-se com um planeta de beleza alienígena e inquietante. Embora fosse noite, o céu vibrava em cores pulsantes e hipnóticas. A vegetação parecia viva, emitindo uma luminescência rítmica, como se respirasse junto ao solo. Mas não havia corpos, apenas sombras carbonizadas, gravadas nas superfícies como memórias silenciosas de uma tragédia repentina.

Logo após o pouso, Melkor e o urso foram inexplicavelmente tomados por um estado de torpor profundo. Adormeceram lado a lado, sem qualquer sinal de despertar, e foram deixados sob os cuidados de Drooz enquanto os demais seguiram em missão.

Os agentes desembarcaram e, guiados por um sinal fraco vindo do leste, caminharam pela paisagem viva e onírica de Arokk. Subitamente, foram atacados por dois seres incorpóreos, de natureza fantasmagórica. Durante o confronto, Ringo foi tomado por um impulso agressivo, chegando a atacar seus companheiros. Perceberam que ele estava sendo manipulado mentalmente, e conseguiram libertá-lo ao destruir os invasores espectrais.

Diante da dúvida entre recuar ou seguir adiante, decidiram que a presença das entidades poderia indicar a proximidade de algo importante. Seguindo o sinal, chegaram a uma formação rochosa translúcida, que escondia uma cúpula misteriosa. A entrada parecia quase um convite – ou um aviso.

Dentro, a iluminação era fraca, e o ambiente reverberava com ecos e sussurros incompreensíveis, diferentes para cada mente. Era claramente um templo, mas sua função ia além do religioso, algo entre o tecnológico e o espiritual. Lá, uma entidade se apresentou: o Guardião Mental de KELAA, uma inteligência alienígena que só conseguia se comunicar com alguns dos personagens, despertando suspeitas e fascínio.

Através de interações com o Guardião, ouviram um enigma:

“Entrar no Templo dos Sussurros ou sair vivo daqui.
O que você procura pode não ser o que você pensa que é.
Encontre as respostas nas paredes,
Mas cuidado com a sua mente: ela é traiçoeira.”

Enquanto exploravam o interior do templo, encontraram registros nas paredes, enigmas que eram mensagens deixadas por cientistas locais antes do colapso. Foi então que descobriram que a doença que devastou Arokk não era biológica. Era, na verdade, um parasita psíquico, vinculado a um artefato antigo. Compreenderam também que os habitantes do planeta não haviam sido destruídos, mas pareciam ter sido absorvidos, fundidos ao próprio pulsar vivo do planeta.

Nesse momento, uma forma corpórea do Parasita Psíquico manifestou-se. Um ser tentaculoso, de voz hipnótica e presença opressora, projetava o medo mais íntimo de cada agente. Apesar da dificuldade do confronto, o grupo reagiu com habilidade, fragmentando e eliminando sua forma material.

Após o embate, KELAA revelou que aquela era apenas uma manifestação secundária. A verdadeira entidade ainda se encontrava selada no artefato original, escondido nas profundezas do templo. As armas para enfrentá-la, porém, estariam ali também prontas para serem encontradas pelos dignos aventureiros.

Exaustos e com mais perguntas do que respostas, os personagens optaram por retornar à nave para descansar. Utilizaram magia para protegê-la durante a noite, garantindo que pudessem repousar com segurança. O próximo passo? Penetrar ainda mais fundo na mente do planeta e desvendar os segredos que dormem junto com os ecos de Arokk.

O amanhecer em Arokk, no entanto, não trouxe paz. O céu dançava em espirais nervosas. A vegetação, antes pulsante em ritmo sereno, agora vibrava com espasmos irracionais. O solo gemia, como se o próprio planeta gritasse.

Onok compreendeu que o colapso planetário estava diretamente ligado ao Parasita Psíquico. Enquanto a essência dele estivesse viva, Arokk seguiria desmoronando. Então, apesar de o urso (que ninguém lembrava o nome) e Melkor permanecerem em sono profundo, Kryos, Ringo, Onok e Luke decidiram continuar a missão, retornando ao Templo dos Sussurros.

Apesar de estar junto na missão, Luke parecia estar distante, ficava com o olhar perdido e não interagia com o grupo. Era como se não estivesse presente.

Enquanto seguiam para o leste, na direção do templo, o chão tremia. De repente, fendas se abriram sob seus pés, liberando vapores coloridos e gritos que não pertenciam a garganta alguma. Vozes… de memórias? Por uns instantes, os nobres aventureiros ficaram atordoados, mas continuaram ainda com mais vontade para resolver a questão.

Uma projeção translúcida surgiu no céu, com a voz fragmentada de KELAA dizendo “O tempo escoa… A resposta está dentro… Libertem-nos… ou perecerão”. Eles correram ao templo e tiveram aquela mesma experiência ao passar por algo que parecia uma porta maciça.

O quarteto se lembrava de que as armas para destruir o Parasita Psíquico estavam ali dentro do Templo dos Sussurros, mas não faziam ideia de como encontrá-las. A presença de KELAA, então, os guiou por corredores que se moldavam como pensamento líquido. Cada parede carregava vozes, e as sombras ecoavam sentimentos.

Ao final de um corredor, se depararam com três portas. Ringo fez uma magia para guiá-lo na escolha e proteção. Assim, entraram pelo portal mais próximo a ele e, imediatamente, todos os quatro tiveram visões tão vívidas que pareciam reais. Ouviram a voz de KELAA dizer “Uma figura conhecida. Perdida no passado. Ela está ali. Sorri para você.” e cada um precisou enfrentar sua própria fuga da realidade para conseguir se libertar do torpor. O prêmio conquistado por eles foi a Lança da Memória Viva, que Ringo empunhou.

A segunda porta também lhes despertou visões. Dessa vez, ouviram “Um futuro ideal. Tudo o que você sempre sonhou. Apenas aceite.” e tiveram que lutar para se desprender de seus sonhos e perceber que estavam em missão. O que quer que eles falassem ou fizessem enquanto tinham as visões, sem perceber, eles também faziam no mundo real. Alguns puxaram armas, outros beberam o que achavam ser poções (mas eram água). Quando, finalmente despertaram, receberam o Escudo da Clareza, que ficou sob os cuidados de Kryos.

Por fim, ouviram de KELAA que ainda faltava uma arma e entraram na última porta. A Câmara do Sacrifício lhes falou “Uma barganha. ‘Fique comigo e salve quem ama. Só isso.’” enquanto cada um precisava aceitar ou recusar a barganha em suas visões. Nem todos foram fortes o suficiente, mas Luke que, misteriosamente despertou de seus devaneios, trouxe os demais à realidade. Assim, ele garantiu a Lâmina do Eu Verdadeiro.

Assim que empunhou a espada, uma porta ao fundo da sala se abriu e os aventureiros correram por ela até um salão enorme com um pé direito muito alto. O coração do templo, escuro, sem tempo e sem chão. A única coisa que eles viam era o artefato (que se assemelhava a uma ampulheta) bem no meio, se é que havia um meio. De dentro dele o Parasita se revelou: tentacular, abstrato, com mil olhos e nenhuma forma fixa. Eles conseguiam perceber (sabe-se lá como) que cada pensamento que tinham… ele sentia.

Luke, Ringo e Kryos avançaram contra o inimigo com suas novas armas, enquanto Onok usava suas flechas à distância contra o artefato. No entanto, não demorou muito para que o templo começasse a ruir. Abaixo dos pés, tremor. Acima da cabeça, pedras caíam.

Com seu poder traiçoeiro, o Parasita Psíquico os deixava apavorados e atordoados. Em determinado momento, Kryos e Ringo pararam de lutar contra seu inimigo comum e passaram a brigar entre si, inclusive com as poderosas armas para destruição do Parasita.

Luke e Onok ouviram a voz de KELAA, mais humana, mais livre, fazendo um último pedido: “Posso fundir-me ao planeta e mantê-lo vivo. Mas preciso… de um de vocês. Um só.”.

Cada vez que Onok acertava uma de suas flechas no artefato, mesmo mundanas, o Parasita gritava e se irritava mais. Por fim, o artefato se desfez e o monstro sumiu, se desfazendo como fumaça. O Templo, então, apesar de se iluminar levemente, já estava em avançada destruição. Os jovens aventureiros precisavam tomar uma decisão: fugir ou atender aos apelos de KELAA.

Luke, o mais bravo de seu povo, ergueu a voz e se entregou à inteligência. Nesse mesmo instante, fendas começaram a se fechar e as pedras pararam de rolar. Tudo ficou calmo. Silêncio. Até Ringo e Kryos voltaram ao seu normal (exceto pelo fato de Kryos ter cegado o amigo com suas unhas durante a batalha). Feridos e cansados, permaneceram quietos por alguns minutos.

Iluminado e com olhos mais vibrantes, Luke começou a falar. No momento que decidiu permanecer em Arokk, KELAA se fundiu à sua mente. O jovem se tornou um avatar da inteligência e tudo ficou claro como a água do rio mais limpo de seu planeta. Contou, então, como tudo começou, se desenrolou e virou um caos, quase exterminando todo o planeta.

Luke Artreides

O jovem Luke contou aos companheiros que, há algum tempo, caçadores de recompensa retornaram de uma expedição para além do Império e trouxeram o artefato. Não sabendo para que servia, eles e alguns cientistas estudaram-no de diversas formas. Conforme os dias iam passando, eles e as pessoas com quem conviviam se tornaram ríspidas, depressivas e briguentas. Alguns lutavam entre si até a morte, muitas vezes, sem nem lembrar ou saber o motivo da briga.

Diante de tantas doenças mentais que surgiram, os cientistas de Arokk procuraram KELAA para auxiliar na solução do problema. Por isso, as paredes do templo continham frases e cálculos. Não houve tempo para chegar a um consenso. Todos foram tomados de rancor, ódio e tristeza… até virarem sombras e se tornarem parte do planeta. Arokk ruía enquanto o Parasita reinava, sugando todas as suas forças.

Com o Parasita Psíquico fora do planeta, agora seria possível buscar uma forma de trazer os moradores de volta à vida. Mas Luke deveria ficar e buscar essa resposta, sem nunca mais sair de Arokk provavelmente.

Um ou outro aventureiro também quis ficar, mas, por fim, Luke ficou só enquanto seus companheiros retornaram à nave e reportaram tudo isso ao Sr. Ohm por meio do andoide Drooz. Se o planeta foi completamente restaurado, e o que aconteceu a Luke, Onok, Kryos, Ringo e aos dorminhocos, só o tempo poderá dizer.


Leia o conto que eu publiquei na Iniciativa T20 da Jambô Editora

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