Helga Iris, a sereia druida, está quase que, literalmente, com o coração na mão e parece que isso a fez se desviar do caminho que retornava à cidade para um lugar que já preocupava consideravelmente os membros do grupo.
Um turbilhão de pensamentos me invadiu naquela caminhada pelo bosque. Muitos pensamentos e pensamento nenhum. Um vazio. Provavelmente, esse foi o motivo de eu ter guiado o grupo para tão longe e ter parado logo naquele lugar.
Minha vida em Villent com minha mãe adotiva e eu em nossa sala de estar, ela sentada na poltrona e eu no chão, bem à frente dela. O fogo crepitando na lareira e Silena contando histórias de aventuras para mim, aventuras que ela mesma deve ter tido com seu noivo Zemo, antes de ele falecer.
Meus amigos Kaito Sakurauchi e Anya Davenport que brincavam de aventureiros comigo quando éramos crianças. Zora West e seu melhor amigo Filipe, o Corcel Negro. Sylas Mooncrest e seu pai, Lord Aether Mooncrest, que tentaram matar Kaito e eu com emboscadas na saída das aulas por ele ser tamuraniano e eu, uma sereia.
Momentos engraçados, como quando tentei me transformar em uma borboleta, sem sucesso. Momentos difíceis, como quando me despedi de Silena para me tornar aventureira. Minha chegada a Yuvalin, Rei Joss e os amigos do Rio Panteão, nossa primeira missão como Desafiantes de Yuvalin, a perda do Noah para os mortos-vivos.
Meus encontros com Goro, nosso primeiro beijo, nossa primeira noite juntos, depois de ele me pedir em namoro. O resgate da Noah e meu resgate por ela, nossa convivência, nossas conversas. As descobertas sobre meus pais e sobre mim mesma, o treinamento em Nitamu-ra.
Minha vida passava diante dos meus olhos. Eu poderia morrer a qualquer momento por causa daquele coração atrelado ao meu. Como aventureira, eu estava suscetível à morte. Já era praxe. Mas, naquele instante, eu me sentia ainda mais vulnerável, muito mais próxima do Reino de Allihanna para o descanso eterno. Não via nada. Não ouvia nada.
Quando finalmente parei, foi como se tivesse despertado de um sonho ruim. Olhei para todos os lados, me perguntando como tínhamos ido parar ali. Ao me dar conta do que fiz, eu pedi desculpas ao grupo por ter guiado todos ao lugar errado. Não sabia o que fazer. Edward e eu trocamos confirmações sobre ser o tal casebre que tínhamos falado tantas vezes dos sonhos dele e das visões com a espada de matéria vermelha de Sir Starkey.
Para o nobre, estar ali era um sinal do destino ou de alguma coisa grande. Se isso pudesse me ajudar a resolver a maldição com o coração, eu ficaria aliviada. Perguntei se iríamos entrar no casebre, fosse para investigar ou dormir, então, os meninos pediram apenas para investigar antes. Melhor evitar mais armadilhas.
Enquanto isso, Stefan me alertou sobre o ferimento grave do minotauro. Era um paradoxo bem complicado: um minotauro, que, no geral, era uma criatura estúpida e inescrupulosa, porém completamente envolto na cultura tamuraniana, não apenas pelos seus trajes, mas pelos seus modos também. Me reconectei com o mundo real e com a minha deusa, suplicando para que ela o curasse através das minhas mãos e assim aconteceu.
Reparei pegadas no chão que levavam até o casebre, pedaços de roupa rasgada presas em árvores e no chão e madeira quebrada. Além disso, senti que havia alguma ameaça dentro do casebre e, imediatamente, meus dois corações começaram a bater disparados. Algo podia dar muito errado e eu alertei o grupo. Falei que precisávamos nos preparar e esperar o pior.
Estávamos muito cansados, queríamos descansar. A ideia do Toshinori era dormir no casebre, mas se tinha alguma ameaça, não seria uma boa ideia. Stefan acreditava que poderíamos esperar o melhor. Ficamos um certo tempo discutindo sobre o que fazer, como bons Desafiantes de Yuvalin que somos. Tomamos umas essências de mana e cuidamos para que todos estivessem prontos para enfrentar o que quer que fosse encontrado no casebre.
Toshinori pediu para que Stefan usasse apenas a adaga, para não haver problemas novamente, caso ele portasse sua pistola. Até levantou a camisa do Joseph como provas de seus crimes passados. Mas eu simplesmente respondi que confiava no Stefan. O paladino quase caiu no chão depois disso.
Olha, sejamos sinceros. O Toshinori tem estado bem esquisito nos últimos dias, sentindo medo, evitando a todo custo uma briga. Muito estranho. E o maluco tem sido cada vez mais útil. Se o mundo estava de cabeça para baixo, por que eu não confiaria no kliren que não traiu a gente com a namorada maluca? Ele parecia estar querendo ajudar de verdade.
Os meninos começaram a se aproximar, fiquei um pouco atrás acompanhando. Enquanto eles retornavam, Stefan tropeçou e fez um barulho discreto, mas que pareceu ser o suficiente para atrair a atenção de quem habitava o casebre.
De repente, só ouvimos uma risada vinda de dentro e alguém tentando defender o local e sua amada de invasores e mercenários. Naturalmente, não éramos os primeiros a tentar se aproximar. Qual não foi meu maior susto, o maior da vida, maior que o do coração. Fiquei estarrecida com o que eu vi. Só ouvia o som das batidas dos corações.
Eis que saiu pela porta do casebre ninguém mais e ninguém menos que um cavaleiro em armadura e espada puídas e enferrujadas. O cavaleiro era um esqueleto com rosas em seus olhos e presas ao restante da armadura escura e um belo topete cobria seu crânio. Seria impossível não o identificar. Eu não podia acreditar! Fiquei sem ar, de boca aberta, devia estar completamente pálida.
Aquele era Sir Anthony Starkey, o meu pai.
Edward logo se apressou em chamá-lo pelo nome e dizer que trouxera alguém importante para ele conhecer e também lançou sobre a grama revirada a espada bastarda de matéria vermelha, para que não houvesse conflitos. Quando Sir Starkey viu a espada, ele ficou pasmo – como se isso fosse possível. Sua expressão deveria ser igual à minha naquele momento.
Ignorando tudo o que havia ao meu redor, qualquer fala, qualquer sinal de um dos integrantes do grupo ou fosse o que fosse, eu avancei até onde o cavaleiro pudesse me ver com mais clareza e me apressei em dizer:
– A gente veio trazer esta espada para você. Oi, pai!
Assista ao vídeo sobre essa parte da história no canal do Qual é a do RPG?: https://youtu.be/2ticY712FZs
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Até breve!
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