Qual é a das quintas? entrevista: Igor Pires

Durante a 9ª Festa Literária Internacional de Maricá, que você pode ler sobre minhas experiências clicando no link do post aqui, tive a incrível oportunidade de conversar com vários autores. Entre eles, bati um papo com Igor Pires, autor de Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente e Todas as coisas que eu te escreveria se pudesse, sobre sua vida e sua obra.

Você vai conferir um resumo aqui, mas já aviso logo que essa entrevista já está disponível na íntegra no Qual é a dos podcasts?.

Igor Pires, autor

Aline Gomes – Qual é a das quintas?
Qual é a sua maior inspiração para escrever?

Igor Pires
Eu acho que minha maior inspiração são as pessoas. Sou apaixonado por pessoas. E isso é muito engraçado, porque eu amo, por exemplo, ir pros lugares e conversar com pessoas desconhecidas e perguntar da vida, da história da pessoa, o que as motiva, sabe? E acho que eu sempre tive esse senso e esse instinto de querer conhecer mais as pessoas. É muito sobre mim, mas também é muito sobre a experiência humana que é estar nesse mundo, sentindo muitas coisas e vivendo muitas coisas. Eu acho que, obviamente, a história da minha família, dos meus pais, das pessoas ao meu redor, do que eu observo de suas vidas, acaba se tornando fonte de inspiração pra mim, pra eu escrever o meu trabalho. Mas eu acho que tudo me inspira.

Aline Gomes – Qual é a das quintas?

Como você vê o seu público interagindo com a sua obra? Você é um influenciador. Várias pessoas, eu imagino, que devam admirar o seu trabalho e também interagir com você. Como é essa troca que você tem com as pessoas?

Igor Pires

Escrever um livro é um processo bastante solitário, porque é um lugar onde você tem que mergulhar em você mesmo muitas e muitas vezes, e, às vezes, são mergulhos muito profundos. Você acaba, às vezes, perdendo de vista o mundo ao seu redor. Eu acho que a pandemia também trouxe esse aspecto de fazer com que as pessoas fiquem cada vez mais em casa, às vezes mais reclusas. Quando eu fui pra Bienal e quando eu saio para fazer eventos que eu vejo que as pessoas estão lá e que as pessoas, realmente, vêm me ver, elas querem um autógrafo, elas querem conversar, eu fico espantado. Porque é você sair de um lugar de solidão para ir a um lugar onde muitas pessoas sentem a mesma coisa que você. Óbvio, não sentem a mesma coisa, mas sentem a mesma sensação. Isso me enche de orgulho. Eu escrevo porque eu tento curar o mundo, mas eu não consigo. Mas se eu mudar a vida de uma pessoa, acho que eu estou mudando o mundo.

Aline Gomes – Qual é a das quintas?

Como é pra você estar num evento como a Flim?

Igor Pires

Eu acho que é minha primeira Feira Literária Internacional e eu me senti muito honrado. Sei que, às vezes, eu duvido um pouco do meu trabalho. Então, percebi que as pessoas pensam em mim, gostam do meu trabalho. Eu acho que é sempre uma realização pessoal, uma realização profissional. E eu estou amando. Estou sendo super bem tratado. As meninas disseram que tem bastante gente pra me ver, não pra me ver, mas pra acompanhar a mesa. E acho que é um baita privilégio.

Aline Gomes – Qual é a das quintas?

E é um prazer estar conversando aqui com você! Que conselho que você daria para as pessoas, tanto que te leem, quanto as que querem continuar seguindo seu trabalho, continuar fazendo o seu próprio trabalho, continuar sonhando e vivendo as emoções que você expõe, todos esses temas que realmente são importantes serem tratados e que, muitas vezes, não é dado o devido valor?

Igor Pires

Vou dar um conselho que eu acho que é não só pra quem quer escrever, quem quer entrar nesse mercado, mas pra vida. Caminha que seus caminhos se abrem. Eu falo: “escreva, comece”. Porque a gente está sempre assim “é tarde para começar”. Comece agora! Caminhe, dê o primeiro passo. Acho que é isso.

Sobre o autor

De acordo com sua assessoria, Igor Pires possui uma coletânea de seis livros e, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos e considerado o autor mais lido em 2020, sua publicação mais recente é Este é um corpo que cai mas continua dançando, que figura entre os mais vendidos de ficção no Brasil.

Igor Pires é escritor, publicitário e criador do projeto Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente. Começou escrevendo textos para a internet ainda na adolescência e, nos últimos anos, criou uma comunidade fervorosa de leitores amantes da poesia e da literatura jovem. Nascido e criado na periferia de Guarulhos, se formou em Publicidade e Propaganda, onde descobriu sua paixão pela comunicação e pelas redes sociais.

Primeiro final de semana da Flim 2024 entrega experiências memoráveis

Gosto muito de uma frase que li esses dias, tanto que coloquei no meu site profissional e nos marcadores de livros que levei para a Flim: “Imaginamos o que não existe para criar o que sonhamos” (autor desconhecido). A 9ª Festa Literária Internacional de Maricá me trouxe para esse lugar de sonhar e imaginar, e não podia ser diferente quando o homenageado era ninguém mais e ninguém menos que Ziraldo.

“Ziraldo era um especialista em infância (…) e o maior artista plástico do Brasil” (Aroeira).

Ziraldo, homenageado da Festa

Infelizmente, só consegui participar mesmo do primeiro final de semana da Festa, mas trago aqui algumas das minhas descobertas e um (nem tão) breve resumo de como foi a experiência.

Para quem não conhece, a Flim é produzida pela Prefeitura de Maricá, é totalmente gratuita e com incentivos das secretarias de Educação e Cultura. Os alunos da rede pública e de programas, como o Passaporte Universitário, recebem vouchers para comprar livros. Além disso, outras secretarias municipais participam com instrução e serviços aos munícipes e visitantes.

A programação deste ano trouxe nomes excepcionais e eu tive a oportunidade, também, de conversar com algumas autoras moradoras de Maricá. A Laura Costa, por exemplo, foi secretária de educação na década de 1990 e trouxe Ziraldo para a Bienal do Livro na cidade. Para ela, que escreveu dois livros, o evento é uma ótima oportunidade para difundir a leitura na população, uma vez que Maricá não possui livrarias, apenas bibliotecas públicas nas escolas.

Essas autoras me contaram sobre o sonho de escrever, como chegaram a publicar e, além disso, as temáticas que envolvem seus trabalhos, sempre trazendo a importância de falar sobre assuntos que precisam ser mais difundidos, inclusive, na infância. Joselene Negra Black fala em poesias, contos e crônicas sobre inclusão e representatividade da mulher, do negro e TEA. Ana Luísa Magalhães estava extremamente feliz por participar da Flim e ofertar seus livros de poesia sobre mulheres e para mulheres, e um infantil que é inspirado em sua própria filha.

Luciana Pinheiro, Liliane Mesquita e Danielle Viana me contaram sobre suas lindas trajetórias no mundo da escrita, tendo o estar na Flim vendendo seus livros a realização de um sonho. Elas abordam em suas produções a fome, a pobreza, o abuso sexual infantil, educação parental e dicas para viver nos dias atuais.

A autora Andreia Prestes esteve em uma roda de conversa junto com o professor e doutor Celso Vasconcellos, quando falaram sobre a importância de resgatar a memória familiar e identidade coletiva. Dentre os assuntos tratados no encontro, destaco a necessidade de manter a memória da população acesa e a apresentação para a criança e o jovem daquilo que ainda não é difundido, a abertura para todos os temas. Andreia, por exemplo, é autora do livro infantil “Era uma vez um quintal”, em que conta sobre João Massena Melo, seu avô, que, um dia, saiu de casa para uma reunião e desapareceu durante a ditadura militar.

Andreia Prestes, José de Abreu e Celso Vasconcellos

Paulinho Moska e Lenine estiveram no palco do Papo Flim, conversando com Maurício Pacheco. Eles falaram sobre como a música tem o poder de contar histórias e como a poesia e as regionalidades são protagonistas dos seus trabalhos. Os dois destacaram a importância de ir além da rima pela própria rima, entregando sentido às letras e à musicalidade. Não preciso nem falar dos shows de Sandra Sá e Lenine que foram incríveis no palco, não é?

A linda homenagem a Ziraldo contou com uma roda de conversa que trouxe outros grandes nomes do chargismo e desenho brasileiros: Aroeira e Miguel Paiva. Adriana Lins (sobrinha e presidente do Instituto Ziraldo), conversou com os cartunistas e Laura Costa sobre a influência do homenageado em suas obras e eles contaram várias histórias divertidas e emocionantes sobre seu relacionamento com o escritor. Miguel e Aroeira, por exemplo, levavam seus desenhos para a avaliação de Ziraldo, que amava trabalhar em grupo e, basicamente, inventou o design gráfico no Brasil.

“Da mesma forma como a gente não se esquece de Shakespeare, (…) não vamos nos esquecer de Ziraldo” (Aroeira).

Laura Costa, Adriana Lins, Miguel Paiva e Aroeira

Confesso que eu fiquei tão maravilhada durante a roda de conversa entre Igor Pires, Thalita Rebouças, Felipe Fagundes, Andressa Santos e Tuca Andrada que nem consegui anotar nada. Meus olhos brilhavam! O bate-papo super leve e descontraído revelou como os autores se relacionam com a escrita e com o público, além de ressaltar a relevância dos temas tratados por eles nos contextos familiares e da adolescência e juventude. Em breve, vou contar para vocês sobre a entrevista exclusiva que fiz com Igor Pires.

Igor Pires, Andressa Santos, Felipe Fagundes, Thalita Rebouças e Tuca Andrada

A Festa Literária Internacional de Maricá continua até dia 10 de novembro, na Orla do Parque Nanci, com a presença de Roberta Sá, Vanessa da Mata, MV Bill, Geraldo Azevedo e muitos outros grandes nomes.

Se eu pudesse resumir meu primeiro final de semana de Flim, seria exatamente isso: desejo renovado por ler mais e me dedicar mais à escrita. Claro que foi super cansativo, mas extremamente recompensador. Foi uma oportunidade ímpar de estar próxima a pessoas que amam ler e escrever e que foram resgatadas pelo poder que a palavra tem.