Ecos da Orla Interior

RPG rende histórias incríveis! Você já sabe disso se joga ou se apenas leu aqui o Épico e Aquático com as aventuras da sereia druida Helga Iris. E, se você acompanha o canal do Qual é a do RPG?, você também sabe que eu já mestrei algumas aventuras muito loucas e divertidas.

Recentemente, convenci uns amigos que nunca tinham jogado a montarmos uma mesa presencial. O resultado da nossa primeira aventura autoral nesse grupo é o conto que você vai ler a seguir. Espero que você se divirta tanto como nós.


Os corredores do Palácio Imperial pareciam estreitos nos intervalos das sessões de cúpula. O Secretário de Segurança e Defesa José Huyg se espremeu entre seus colegas do Conselho para conseguir passar e alcançar o Imperador Jong. Seu semblante era tão preocupado que o Imperador se assustou e pediu licença a outro conselheiro com quem conversava para chamar José ao seu gabinete.

Sentados um de frente para o outro, José revelou toda a sua inquietação. Ele não esperou o Imperador terminar de ler a carta e contou que um planeta da Orla Interior do Império, Arokk, teria sido atacado por uma praga que dizimou a população. Ninguém sabia ainda qual a origem da praga, do que se tratava, apenas que não havia mais sinais da população vindos de lá.

Como um bom secretário, trouxe o problema junto com uma solução plausível: sob a aprovação do Imperador Jong, ele contataria seu melhor gestor de assuntos especiais e secretos para enviar uma equipe até Arokk e, não apenas descobrir o que aconteceu, mas resolver o problema. Jong concordou. Não queria que o assunto se espalhasse para não gerar pânico. Também não queria que a praga se espalhasse, então, pediu cuidado redobrado.

Naquela mesma noite, o Secretário José se encontrou com o senhor Ohm, líder da agência ultra secreta Olho do Infinito, localizada dentro de uma estação de spa flutuante num lugar qualquer da galáxia. Aquele senhorzinho simpático, de olhos puxados, era mais ágil do que qualquer um podia imaginar. Imediatamente após receber ordens, começou a organizar seus melhores agentes. Por um infortúnio do destino, todos eles estavam extremamente ocupados em outras missões muito necessárias.

Lembrou-se, então, de alguns jovens promissores que ouviu falar tempos atrás e decidiu testá-los para enviar a essa missão posteriormente. Antes, porém, de chegar a Lagum para encontrar Krýus Ákro do Clã dos Olhos Azuis, levou sua nave até à principal oficina de naves da galáxia para pequenos reparos. Quando, finalmente, retornou à agência, deparou-se com um grande urso que conseguiu adentrar à nave sorrateiramente. Isso poderia ser útil.

Krýus Ákro do Clã dos Olhos Azuis

O senhor Ohm reuniu-se individualmente com cada recruta para verificar suas habilidades. Eles eram péssimos. Mas não havia muito tempo, tinha que servir. Por um tempo que os recrutas não conseguiam contar isolados em uma arena separada para eles, Ohm os manteve treinando até a hora de partir.

Quando tudo já estava pronto para a missão, Luke, Kryos, Ringo, Melkor, Onok e o urso (cujo nome foi inexplicavelmente esquecido) encontraram-se na base secreta da organização Olho do Infinito. O enigmático e sereno senhor Ohm lhes apresentou uma missão urgente: o planeta Arokk, localizado na orla interior da galáxia, havia sido dizimado por uma misteriosa doença.

O objetivo era claro: investigar o que aconteceu e impedir que a ameaça se espalhasse. Cada agente recebeu 30 pings, a moeda oficial do Império, para aquisição de equipamentos e embarcou na nave Estrela do Entardecer, comandada por Drooz, um piloto androide poético e filosófico.

A viagem atravessou uma zona de dobra conhecida como Mente de Morgoo, um espaço psicodélico onde formas, linhas e cores se distorciam em padrões quase vivos. Alguns dos agentes foram afetados por alucinações sutis, mas rapidamente se recuperaram. Os demais, que não experimentaram os efeitos, não compreenderam o que havia acontecido, gerando tensão e incerteza.

Ao chegarem a Arokk, depararam-se com um planeta de beleza alienígena e inquietante. Embora fosse noite, o céu vibrava em cores pulsantes e hipnóticas. A vegetação parecia viva, emitindo uma luminescência rítmica, como se respirasse junto ao solo. Mas não havia corpos, apenas sombras carbonizadas, gravadas nas superfícies como memórias silenciosas de uma tragédia repentina.

Logo após o pouso, Melkor e o urso foram inexplicavelmente tomados por um estado de torpor profundo. Adormeceram lado a lado, sem qualquer sinal de despertar, e foram deixados sob os cuidados de Drooz enquanto os demais seguiram em missão.

Os agentes desembarcaram e, guiados por um sinal fraco vindo do leste, caminharam pela paisagem viva e onírica de Arokk. Subitamente, foram atacados por dois seres incorpóreos, de natureza fantasmagórica. Durante o confronto, Ringo foi tomado por um impulso agressivo, chegando a atacar seus companheiros. Perceberam que ele estava sendo manipulado mentalmente, e conseguiram libertá-lo ao destruir os invasores espectrais.

Diante da dúvida entre recuar ou seguir adiante, decidiram que a presença das entidades poderia indicar a proximidade de algo importante. Seguindo o sinal, chegaram a uma formação rochosa translúcida, que escondia uma cúpula misteriosa. A entrada parecia quase um convite – ou um aviso.

Dentro, a iluminação era fraca, e o ambiente reverberava com ecos e sussurros incompreensíveis, diferentes para cada mente. Era claramente um templo, mas sua função ia além do religioso, algo entre o tecnológico e o espiritual. Lá, uma entidade se apresentou: o Guardião Mental de KELAA, uma inteligência alienígena que só conseguia se comunicar com alguns dos personagens, despertando suspeitas e fascínio.

Através de interações com o Guardião, ouviram um enigma:

“Entrar no Templo dos Sussurros ou sair vivo daqui.
O que você procura pode não ser o que você pensa que é.
Encontre as respostas nas paredes,
Mas cuidado com a sua mente: ela é traiçoeira.”

Enquanto exploravam o interior do templo, encontraram registros nas paredes, enigmas que eram mensagens deixadas por cientistas locais antes do colapso. Foi então que descobriram que a doença que devastou Arokk não era biológica. Era, na verdade, um parasita psíquico, vinculado a um artefato antigo. Compreenderam também que os habitantes do planeta não haviam sido destruídos, mas pareciam ter sido absorvidos, fundidos ao próprio pulsar vivo do planeta.

Nesse momento, uma forma corpórea do Parasita Psíquico manifestou-se. Um ser tentaculoso, de voz hipnótica e presença opressora, projetava o medo mais íntimo de cada agente. Apesar da dificuldade do confronto, o grupo reagiu com habilidade, fragmentando e eliminando sua forma material.

Após o embate, KELAA revelou que aquela era apenas uma manifestação secundária. A verdadeira entidade ainda se encontrava selada no artefato original, escondido nas profundezas do templo. As armas para enfrentá-la, porém, estariam ali também prontas para serem encontradas pelos dignos aventureiros.

Exaustos e com mais perguntas do que respostas, os personagens optaram por retornar à nave para descansar. Utilizaram magia para protegê-la durante a noite, garantindo que pudessem repousar com segurança. O próximo passo? Penetrar ainda mais fundo na mente do planeta e desvendar os segredos que dormem junto com os ecos de Arokk.

O amanhecer em Arokk, no entanto, não trouxe paz. O céu dançava em espirais nervosas. A vegetação, antes pulsante em ritmo sereno, agora vibrava com espasmos irracionais. O solo gemia, como se o próprio planeta gritasse.

Onok compreendeu que o colapso planetário estava diretamente ligado ao Parasita Psíquico. Enquanto a essência dele estivesse viva, Arokk seguiria desmoronando. Então, apesar de o urso (que ninguém lembrava o nome) e Melkor permanecerem em sono profundo, Kryos, Ringo, Onok e Luke decidiram continuar a missão, retornando ao Templo dos Sussurros.

Apesar de estar junto na missão, Luke parecia estar distante, ficava com o olhar perdido e não interagia com o grupo. Era como se não estivesse presente.

Enquanto seguiam para o leste, na direção do templo, o chão tremia. De repente, fendas se abriram sob seus pés, liberando vapores coloridos e gritos que não pertenciam a garganta alguma. Vozes… de memórias? Por uns instantes, os nobres aventureiros ficaram atordoados, mas continuaram ainda com mais vontade para resolver a questão.

Uma projeção translúcida surgiu no céu, com a voz fragmentada de KELAA dizendo “O tempo escoa… A resposta está dentro… Libertem-nos… ou perecerão”. Eles correram ao templo e tiveram aquela mesma experiência ao passar por algo que parecia uma porta maciça.

O quarteto se lembrava de que as armas para destruir o Parasita Psíquico estavam ali dentro do Templo dos Sussurros, mas não faziam ideia de como encontrá-las. A presença de KELAA, então, os guiou por corredores que se moldavam como pensamento líquido. Cada parede carregava vozes, e as sombras ecoavam sentimentos.

Ao final de um corredor, se depararam com três portas. Ringo fez uma magia para guiá-lo na escolha e proteção. Assim, entraram pelo portal mais próximo a ele e, imediatamente, todos os quatro tiveram visões tão vívidas que pareciam reais. Ouviram a voz de KELAA dizer “Uma figura conhecida. Perdida no passado. Ela está ali. Sorri para você.” e cada um precisou enfrentar sua própria fuga da realidade para conseguir se libertar do torpor. O prêmio conquistado por eles foi a Lança da Memória Viva, que Ringo empunhou.

A segunda porta também lhes despertou visões. Dessa vez, ouviram “Um futuro ideal. Tudo o que você sempre sonhou. Apenas aceite.” e tiveram que lutar para se desprender de seus sonhos e perceber que estavam em missão. O que quer que eles falassem ou fizessem enquanto tinham as visões, sem perceber, eles também faziam no mundo real. Alguns puxaram armas, outros beberam o que achavam ser poções (mas eram água). Quando, finalmente despertaram, receberam o Escudo da Clareza, que ficou sob os cuidados de Kryos.

Por fim, ouviram de KELAA que ainda faltava uma arma e entraram na última porta. A Câmara do Sacrifício lhes falou “Uma barganha. ‘Fique comigo e salve quem ama. Só isso.’” enquanto cada um precisava aceitar ou recusar a barganha em suas visões. Nem todos foram fortes o suficiente, mas Luke que, misteriosamente despertou de seus devaneios, trouxe os demais à realidade. Assim, ele garantiu a Lâmina do Eu Verdadeiro.

Assim que empunhou a espada, uma porta ao fundo da sala se abriu e os aventureiros correram por ela até um salão enorme com um pé direito muito alto. O coração do templo, escuro, sem tempo e sem chão. A única coisa que eles viam era o artefato (que se assemelhava a uma ampulheta) bem no meio, se é que havia um meio. De dentro dele o Parasita se revelou: tentacular, abstrato, com mil olhos e nenhuma forma fixa. Eles conseguiam perceber (sabe-se lá como) que cada pensamento que tinham… ele sentia.

Luke, Ringo e Kryos avançaram contra o inimigo com suas novas armas, enquanto Onok usava suas flechas à distância contra o artefato. No entanto, não demorou muito para que o templo começasse a ruir. Abaixo dos pés, tremor. Acima da cabeça, pedras caíam.

Com seu poder traiçoeiro, o Parasita Psíquico os deixava apavorados e atordoados. Em determinado momento, Kryos e Ringo pararam de lutar contra seu inimigo comum e passaram a brigar entre si, inclusive com as poderosas armas para destruição do Parasita.

Luke e Onok ouviram a voz de KELAA, mais humana, mais livre, fazendo um último pedido: “Posso fundir-me ao planeta e mantê-lo vivo. Mas preciso… de um de vocês. Um só.”.

Cada vez que Onok acertava uma de suas flechas no artefato, mesmo mundanas, o Parasita gritava e se irritava mais. Por fim, o artefato se desfez e o monstro sumiu, se desfazendo como fumaça. O Templo, então, apesar de se iluminar levemente, já estava em avançada destruição. Os jovens aventureiros precisavam tomar uma decisão: fugir ou atender aos apelos de KELAA.

Luke, o mais bravo de seu povo, ergueu a voz e se entregou à inteligência. Nesse mesmo instante, fendas começaram a se fechar e as pedras pararam de rolar. Tudo ficou calmo. Silêncio. Até Ringo e Kryos voltaram ao seu normal (exceto pelo fato de Kryos ter cegado o amigo com suas unhas durante a batalha). Feridos e cansados, permaneceram quietos por alguns minutos.

Iluminado e com olhos mais vibrantes, Luke começou a falar. No momento que decidiu permanecer em Arokk, KELAA se fundiu à sua mente. O jovem se tornou um avatar da inteligência e tudo ficou claro como a água do rio mais limpo de seu planeta. Contou, então, como tudo começou, se desenrolou e virou um caos, quase exterminando todo o planeta.

Luke Artreides

O jovem Luke contou aos companheiros que, há algum tempo, caçadores de recompensa retornaram de uma expedição para além do Império e trouxeram o artefato. Não sabendo para que servia, eles e alguns cientistas estudaram-no de diversas formas. Conforme os dias iam passando, eles e as pessoas com quem conviviam se tornaram ríspidas, depressivas e briguentas. Alguns lutavam entre si até a morte, muitas vezes, sem nem lembrar ou saber o motivo da briga.

Diante de tantas doenças mentais que surgiram, os cientistas de Arokk procuraram KELAA para auxiliar na solução do problema. Por isso, as paredes do templo continham frases e cálculos. Não houve tempo para chegar a um consenso. Todos foram tomados de rancor, ódio e tristeza… até virarem sombras e se tornarem parte do planeta. Arokk ruía enquanto o Parasita reinava, sugando todas as suas forças.

Com o Parasita Psíquico fora do planeta, agora seria possível buscar uma forma de trazer os moradores de volta à vida. Mas Luke deveria ficar e buscar essa resposta, sem nunca mais sair de Arokk provavelmente.

Um ou outro aventureiro também quis ficar, mas, por fim, Luke ficou só enquanto seus companheiros retornaram à nave e reportaram tudo isso ao Sr. Ohm por meio do andoide Drooz. Se o planeta foi completamente restaurado, e o que aconteceu a Luke, Onok, Kryos, Ringo e aos dorminhocos, só o tempo poderá dizer.


Leia o conto que eu publiquei na Iniciativa T20 da Jambô Editora

Épico e aquático – Pétalas de rosas

O ritmo de batalha dos Desafiantes de Yuvalin é sempre frenético. Principalmente, quando a vida de um dos integrantes está em risco. Ainda mais quando alguém que ela ama está morrendo pela segunda vez.


Ouvi sons como lanças caindo e atingindo alguém que caiu. Provavelmente, Stefan. Além disso, vi que o Kroll ficou preso nas plantas que eu tinha encantado para enredar nossos inimigos. Um deles atirou com um arco na direção dos meninos, mas acho que errou porque não ouvi nenhum som imediatamente. Mas o outro acertou o minotauro.

Ouvi o Toshinori gritar que eu não precisava me preocupar mais porque os Desafiantes estavam ali. Me debati e tentei me desamarrar, mas as cordas estavam muito bem amarradas, então, me arrastei pelo chão. Vi Hyoda e Kroll tentando se desvencilhar das gavinhas e, em pensamento, desfiz o encantamento, liberando as plantas e meus aliados.

O  tambor do Joseph soou e Toshinori pulou por cima do bárbaro e do minotauro, pousando diante dos nossos inimigos, bem de frente pra nós. Ao ver isso, Lazam me puxou pelo cabelo e pôs uma adaga no meu pescoço. Senti o corte doloroso e o sangue começar a escorrer. Eu suava frio e arfava. Meu pai estava morrendo e eu seria a próxima. O barão gritou para que todos se afastassem. Fechei meus olhos e fiz preces. Só ouvia os barulhos de armas e sentia o corte, os braços amarrados. E o calor de uma bola de fogo que atingiu os meninos.

Quando abri os olhos, Toshinori e Hyoda estavam no chão. No entanto, o bárbaro em fúria destruiu por completo um dos inimigos, em vez de me ajudar. Mas eu entendo, é claro. Era uma bola de fogo. O Kroll tem memórias ruins disso. Enquanto isso, outro mercenário atirou no crocodilo.

Toshinori gritou para que Kroll mordesse o biomante que estava brilhando. Mas ele mesmo não conseguiu bater no mago. Eu estava em desespero. Completo desespero. Uma adaga cortando meu pescoço, meus amigos se batendo e meu pai morrendo – DE NOVO.

Enquanto o minotauro se aproximava de mim, o barão puxou a adaga e enfiou no meu peito. Olhei o sangue brotando e, felizmente, não foi um corte profundo. Só não deu tempo de pensar em nada porque ouvi um tiro. No susto, fechei os olhos e ouvi os gritos de Lazam. Stefan poderia ter me matado, mas conseguiu acertar o barão. Momentos em que o Stefan sabe ser bem insuportável, mas é extremamente útil.

Muitos gritos pairavam no ar daquela caverna. Gritos de dor do barão, dos seus servos, dos meus amigos. De repente, o chão ao redor do caixão onde estava Sir Starkey brilhou mais forte, no entanto, sua voz cessou e a caixa parou de se sacudir.

Em fúria, Kroll desceu seu machado sobre o biomante, atravessando o campo de força ao redor do mago. O biomante caiu, jorrando sangue. Hyoda levantou suas katanas em chamas ao meu lado, jogou o Lazam na parede de trás e cortou o corpo do hynne em vários pedaços. O fogo era tão intenso que, até mesmo, as amarras que me prendiam se soltaram.

Eu gritei enlouquecida para que tirassem meu pai do caixão. Me desvencilhei das amarras e supliquei por um milagre a Allihanna e aqueles raios de luz emanaram do meu corpo ao encontro de todos os que estavam feridos na sala.

Nos preparamos para arrancar meu pai daquela caixa horrorosa que o prendia. Todos batemos juntos com nossas armas ou mãos. O campo de força se desfez, as correntes caíram e a luz no chão se apagou. Corri para tirar a tampa do caixão, abri e vi meu pai totalmente sem vida lá dentro. Ele parecia qualquer outro esqueleto dentro de uma tumba, sem nem uma rosa para presentear seu rosto.

Comecei a chorar como uma criança, gritando para que meu pai voltasse. Desespero total. Perdi alguém que não sabia que tinha logo após ter encontrado. Enquanto eu gritava, suplicante, uma rosa nasceu no lugar do olho direito de meu pai e um movimento, como de alguém que respira profundamente, alongou seu tórax por um instante.

Meu coração saltava nessa mistura de sentimentos e um sorriso dele dizendo que ainda precisava se acostumar a não respirar me fez voltar a chorar como uma criança, mas, dessa vez, de profunda alegria. Nos abraçamos, mesmo ele ainda dentro do caixão. Por longos segundos, fomos só nós dois, pai e filha, emocionados.

Meu pai saiu do caixão e caiu. Ele não conseguia ficar de pé. As pernas não funcionavam mais. Se arrastando, ele foi até o corpo estraçalhado do barão, fechou os olhos do ex-amigo e disse que não havia outro jeito, ele merecia o fim pelo que fez. Sir Starkey suspirou mais uma vez, nos agradeceu e perguntou quem iria carregá-lo a partir daquele momento.

Stefan se adiantou, mas não em resposta proativa. Ele convidou o Caique para se juntar a nós – claro que com o objetivo de carregar meu pai. Mas ele respondeu que tinha uma dívida com o vilarejo. Eu não tinha dimensão do que tinha acontecido naquela noite do lado de fora, mas imaginava que, para os meninos estarem ali, o vilarejo poderia estar devastado.

O jovem Caique

Os meninos, principalmente o paladino, queriam o dinheiro do barão. UM ABSURDO. O dinheiro era do vilarejo e eu apoiava por completo que Caique se colocasse a favor do seu povo. Eu argumentei contra Stefan e, até mesmo, Toshinori que o vilarejo precisava ser bem cuidado após o ocorrido, o povo não devia pagar pelo que Lazam fez.

Meu pai analisava o jovem loiro junto de nós. Perguntou sobre a história de Caique e disse que via honra no jovem. Ele não se lembrava de onde era exatamente, mas que o próprio barão havia cuidado dele desde bem pequeno. Sir Starkey puxou sua espada para sagrá-lo cavaleiro, afinal, como Edward salientou, para reger um vilarejo, era necessário ter um título como esse.

Eu ajudei meu pai a se levantar e o segurei para que ele pudesse fazer o ritual de sagrar Caique um cavaleiro. Stefan me ajudou, fazendo uma cadeira para que meu pai sentasse. Após a bênção a Caique, o jovem se levantou e puxou sua espada em um ato pomposo de um novo cavaleiro. Imediatamente aquela espada ficou em chamas e nós olhamos espantados para aquilo. Ele nos contou depois que só sabia que todas as espadas que tocava tinham o mesmo efeito em suas mãos.

Caique nomeou Hyoda como seu auxiliar, já que, prontamente, o minotauro se disponibilizou a ajudar o vilarejo. Também aproveitei aquele momento, depois da entrega daquela cadeira, para agradecer o Stefan. Fiquei um pouco confusa com o fato de ele estar sendo bem útil ultimamente. Além disso, comentei sobre a gente conversar depois sobre algo permanente para permitir que meu pai se locomovesse.

Assim que saímos da caverna e passamos pela porta da capela, meu pai, simplesmente, caiu com a cadeira esfacelada. Hyoda começou a carregá-lo e encontramos Joseph conversando com uma criança. Estava amanhecendo e pude ver ao redor com clareza como tinha sido aquela noite. Haviam corpos e muita bagunça ao redor do castelete. Abracei meu pai e me certifiquei de que o minotauro estava dando apoio a ele. Então, comecei a conversar com as pessoas para consolá-las e a curar os feridos com pequenos milagres de Allihanna.

Também fiz nascer algumas plantas que serviram para ajudar meus aliados a tratar do enterro dos corpos, ao menos como uma homenagem a eles. Passamos todo aquele dia ajudando no que podíamos ali no vilarejo. Toshinori liderou um emocionado discurso fúnebre, mesmo que a maior parte dos mortos não fosse muito chegada aos habitantes do local.

Caique também fez um discurso emocionado e que, finalmente, despertou algum interesse dos moradores de Ermo Esquecido, uma vez que, ao que parece, a nobreza morta naquela noite se importava bem pouco com as pessoas do vilarejo. O jovem trocou o nome do vilarejo para Ermo Lembrado e anunciou que promoveria mudanças significativas ali a partir daquele momento.

É difícil explicar tudo o que eu estava sentindo. Meu pai e eu estávamos juntos agora, eu estava cumprindo minha missão como aventureira e sob a bênção da deusa. Não foi uma noite de festa, foi uma noite de alívio e de recomeços. Muitos estavam traumatizados, outros tinham esperanças de que somente agora a vida iria melhorar. Eu acreditava que a jornada estava apenas começando.

Divaguei sozinha antes de dormir por alguns minutos. Então, meu pai se juntou a mim, trazido por Edward. Dormi nos jardins, sob as estrelas. Meu pai acariciava meus cabelos e eu, que tinha chorado como criança pela possível perda dele, era consolada por ele mesmo como uma criança no colo de seu pai.


Assista ao vídeo sobre essa parte da história no canal do Qual é a do RPG?: https://www.youtube.com/watch?v=H1fvTZJNYTM

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Até breve!

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Épico e aquático – Apresento meus amigos ao meu pai

Helga, finalmente, está diante de Sir Anthony Starkey, também conhecido como seu pai e, agora, muitas coisas precisam ser ditas. Confira mais uma parte do diário da sereia druida, Helga Iris, e dos Desafiantes de Yuvalin.


Allihanna me deu forças para agir naquele momento porque eu mesma estava completamente em choque. Sir Starkey também estava em choque, deu para notar quando ele me chamou de Liara, que era provavelmente o nome da minha mãe. Ele disse que eu me parecia muito com uma pessoa que ele conheceu. Então, né?!

Ele largou a espada, se aproximou, ficou analisando meu rosto, meus cabelos. De forma impressionante, algumas pétalas daquela rosa em seu olho direito começaram a cair, como se ele estivesse chorando. Mais alto que eu, ele me perguntou qual era meu nome e me chamou de pequena. E me pediu um abraço.

Eu fiquei meio assustada porque ele parecia ter absoluta certeza de que eu realmente era filha dele. Tudo bem que eu já cheguei falando isso, mas ele nem pestanejou – se é que isso era possível. Eu também tinha essa certeza. Ele estava de braços abertos diante de mim e eu o abracei. Eu me senti em casa, me senti segura.

Eu chorava, assim como ele perdia as pétalas da rosa. A armadura era gelada, não havia calor no abraço, mas a sensação era a mesma que eu tinha quando estava junto do Goro: lar. O perfume das rosas contribuía para que eu, que não cresci cercada de flores, apenas de ervas curativas, me sentisse plena e tivesse a confirmação de que tinha meu pai abraçado a mim.

Pétalas caíam dos olhos de Sir Starkey

Ainda abraçados, ouvi sua voz imponente, voz de cavaleiro, perguntar se os meninos eram meus amigos. Então, eu mesma quis nos apresentar como um grupo de aventureiros, só ressaltei que o minotauro havia acabado de chegar. Ele, sabiamente, disse que era para tomarmos cuidado com o caçador de Oni. Mais filha dele seria impossível com esse tipo de pensamento.

Sir Starkey me perguntou como eu soube que ele deveria ser meu pai e como havíamos chegado até ele. Expliquei que essa história era longa e comecei a narrar sobre todo o percurso: a execução de minha mãe logo após ter dado a luz por minha causa, minha criação pela minha família adotiva em Villent, a busca pela minha origem para ser uma boa líder do grupo.

Falei sobre as informações recolhidas por Edward com seu pai acerca do paradeiro de Sir Starkey, nossa missão passando pela região, nosso encontro com o Barão Lazam e seu pedido para entregarmos a espada no túmulo. Então, apesar de não conseguir parar de tagarelar quando fico nervosa, parei refletindo sobre tudo o que eu tinha dito porque estava levemente confusa com o fato de meu pai estar e não estar morto.

Ele levou uma de suas mãos apenas de ossos ao seu crânio, exatamente sobre a rachadura que havia na testa, onde, provavelmente, sofreu o golpe que o fez morrer. Ele estava confuso também sobre o tempo que havia dormido – ou morrido, sei lá. Se ele estava confuso… poxa… 

Meu pai e Edward começaram a conversar sobre a espada de matéria vermelha. Eu fiquei encantada quando o Cavaleiro das Rosas desembainhou aquela espada bastarda que a gente conhecia por causar ojeriza e que, em suas mãos, se tornava uma espada absolutamente normal e linda. Era mágica! Não era uma espada normal. Bom, a gente já sabia que não era por ser de matéria vermelha, mas era encantada, entende?

Ele agradeceu por termos levado sua filha até ele e, então, percebeu que estava falando da espada e agradeceu por termos levado até ele suas duas filhas: a espada e eu. Cavaleiros!

Recebemos também seu convite para entrarmos no casebre com a ressalva de não repararmos em sua amada morta na sala. Ok. Se eu podia lidar com meu pai na versão osteon, o que seria velar um corpo de uma desconhecida no meio da sala de casa?

Stefan perguntou pelo nome dela e qual não foi o espanto geral quando meu pai disse que o nome da sua amada de vestes vermelhas morta no meio da sala era Cassandra. Percebendo nossa expressão confusa, o cavaleiro explicou o que aconteceu. Quando ele despertou de seu sono de morte, estava nos braços da amada que chorava, ela havia entregue tudo para a deusa da noite, Tenebra, em troca dele. Ela estava morta agora e com um buraco no lugar do coração.

Opa!

Ele a protegia ali, mantendo o corpo dela dentro de uma cúpula de vidro na sala do casebre. Tudo o que sobrou para dedicar à deusa foi o corpo que mercenários tentam roubar todos os dias, enviados por um necromante.

Opa!

Ao mesmo tempo em que Stefan ainda divagava sobre acreditar que a tal Cassandra era a mesma Cassandra que nós vimos morrer no meio da tempestade rubra em Yuvalin, a que era esposa do seu amigo Drrrun, Edward foi um pouco mais sensato nesse momento e chamou a atenção de meu pai para um assunto mais sério. O kliren ainda interrompeu Ed, muito empolgado para falar sobre a meio-dragão. Stefan estava peculiarmente insuportável naquele momento e o Edward precisou silenciá-lo.

Assim como Edward sugeriu, achei por bem estarmos protegidos dos ouvidos alheios que queriam roubar o corpo de Cassandra para conversar sobre o tal assunto sério que precisávamos tratar. Então, entramos no casebre e vimos a cúpula de vidro com a Cassandra lá dentro em seus vestidos vermelhos.

E foi nesse instante que pareceu que eu tinha voltado ao início da adolescência. Joseph entrou por último na casa e acredito que ele não estava na conversa lá fora porque entrou fazendo perguntas idiotas sobre tirar a Cassandra da cúpula e reclamar que meu pai chamou ele de mascote. De repente, todos do grupo foram se apresentar de fato. Que vergonha!

Tentei intervir antes que a coisa desandasse, apresentando um por um. O Kroll estava meio emburrado, mas não sei se esse era seu natural desde que voltamos das férias ou se ele estava pior. Ele travou uma discussão que parecia infindável com meu pai sobre a pronúncia de sua raça: morrÔ ou morEAU. Graças a Toshinori, a discórdia foi interrompida quando ele disse que, apesar de ele e Edward não conseguirem enxergar mais que 5 palmos à frente, eles eram bem normais. Apresentei também o cavaleiro vindo de Bielefeld.

Stefan disse que era gente boa, fazendo um sorriso super esquisito. Então, nos entreolhamos todos e eu cochichei no que deveria ser o ouvido do meu pai dizendo que o Stefan sabe ser bem insuportável. Ele concordou, mas disse que o inventor tinha um sorriso bonito.

Apresentei Toshinori, falando sobre seus cabelos azuis e que era um paladino de Valkaria. Meu pai gostou de conhecer um companheiro de devoção e rolou aquela piadinha de que devotos de Valkaria se reconhecem também pelo fato de nunca saberem sobre tantos filhos por aí. Eu não sabia era onde me esconder depois dessa.

O Joseph fez algum comentário sobre o Toshinori não ter filhos porque ele não era muito de dar conta do recado, o que piorava, em muito, a minha situação de apresentar meus amigos para o meu pai. Percebi que o paladino começou a se desarmar, tirar a mochila e que o bardo começou a batucar em seu tambor, algo iria acontecer e eu não queria nem ver. Apresentei rapidamente o bardo e tentei mudar de assunto para me apresentar, contando o que tinha acontecido depois que eu nasci.

Os Desafiantes de Yuvalin

Meu pai falou que meus companheiros eram peculiares, mas pareciam muito bons para mim. Estávamos conversando enquanto o caos se instaurava no resto da sala, como o Joseph ser arremessado janela afora pelo Toshinori, o Stefan estava limpando o mosquete e o restante do pessoal queria beber algo envelhecido o suficiente, que fora trazido pelos mercenários.

Entretanto, meu pai e eu tínhamos assuntos a tratar. Primeiramente, ele pediu desculpas. Falou sobre sua paixão pela minha mãe, sobre como ela era bonita, sobre como ficou triste quando descobriu que minha mãe biológica era casada e que decidiu partir diante do fato, após duas semanas de romance. Seu pedido de desculpas foi porque, se ele soubesse que eu já existia no ventre de Liara, minha mãe biológica, ele jamais teria partido.

Falei que não havia o que se desculpar, a culpa não era dele, mas daquele povo que se diziam meus irmãos e que só atrapalharam minha vida. Passado é passado e nós não podemos voltar para mudar, dizia meu pai sobre tudo o que nos levou pelo caminho que trilhamos desde então. Mas podíamos aproveitar o tempo que tínhamos adiante.

Ele queria aproveitar o tempo que agora possuía para ver sua filha se tornar uma aventureira poderosa. Sir Starkey se ofereceu também para fazer parte dos Desafiantes de Yuvalin, se o aceitássemos. Ele só pedia uma coisa em troca: que acabássemos com a tramoia do tal necromante.

Foi então que eu comecei a explicar a problemada toda que nos fez chegar ao casebre: a cripta, a tumba aberta, o coração sobre o símbolo de Tenebra e… que eu estava amaldiçoada, como o insuportável do Stefan fez questão de me interromper para contar ao meu pai.


Assista ao vídeo sobre essa parte da história no canal do Qual é a do RPG?https://youtu.be/2ticY712FZs

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Até breve!

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