As sem-razões do amor

“Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.”

Carlos Drummond de Andrade

Literatura como arte: análise de Com licença poética

Adélia Luzia Prado Freitas, nascida em Divinópolis, Minas Gerais, em 1935, tornou-se professora, fez faculdade de Filosofia junto com seu marido José Assunção de Freitas. Carlos Drummond de Andrade ao tomar conhecimento de seus poemas, os sugere para Pedro Paulo de Sena Madureira para que sejam publicados em forma de livro. O seu primeiro livro é Bagagem, em 1976. Um dos primeiros poemas do livro Bagagem de Adélia Prado, Com licença poética exalta a força feminina.

O título já revela a interligação entre dois textos, logo será evidente no restante no poema. A referência inicial, em formato de paródia, ao Poema das Sete Faces de Carlos Drummond de Andrade demonstra o olhar diferenciado do eu lírico de Com licença poética. O “anjo torto”, que vive nas sombras, de Drummond se transforma em “anjo esbelto”, que toca trombeta e delega um fardo pesado a uma mulher, um cargo que não era para o mundo feminino, mas exclusivo a homens.

Durante todo o poema o eu lírico feminino faz referência ao eu lírico do outro poema que é um homem triste, boêmio, enquanto ela exalta as belezas do Rio de Janeiro, se declara não ser feia que não possa casar, e diz que escreve porque foi incumbida a isso e a alegria dela vem da família e não da bebedeira.

Para finalizar, em “Mulher é desdobrável. Eu sou.”, o eu lírico afirma que a mulher, apesar de crerem os homens que o fardo é pesado, a mulher é forte o suficiente para enfrentar.

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado

Mais que Arte

Quem pode entender
A mais bela arte
Somente ao se render
Totalmente, não em parte

Quem pode entender
Quando se cruzam os olhares
E o sorriso aparecer
De repente, como a lua ilumina os mares

Só quem já pôde amar
Vê em um florido jardim
Que há um perfume singular
Só encontra uma flor assim

Então olhar para o céu
E ver mais que estrelas
O paraíso é a sua beleza

Quem pode entender
Quando as mãos se tocam
Há sintonia, há algo a ver
Como pássaros, aos ares se soltam

Como o instrumentista toca seu instrumento
Assim também há uma orquestra nos corações
Como o sol toca o mar apenas um momento
Não há como dizer que não passam de paixões

Amar, então, torna-se mais que arte
É o sublime em formato de duplo
Amar é o indescritível tudo
Onde há mais em, do saber, nada ter parte.

“Luna D’franchi”
(No caso, eu, Aline Gomes)