Ecos da Orla Interior

RPG rende histórias incríveis! Você já sabe disso se joga ou se apenas leu aqui o Épico e Aquático com as aventuras da sereia druida Helga Iris. E, se você acompanha o canal do Qual é a do RPG?, você também sabe que eu já mestrei algumas aventuras muito loucas e divertidas.

Recentemente, convenci uns amigos que nunca tinham jogado a montarmos uma mesa presencial. O resultado da nossa primeira aventura autoral nesse grupo é o conto que você vai ler a seguir. Espero que você se divirta tanto como nós.


Os corredores do Palácio Imperial pareciam estreitos nos intervalos das sessões de cúpula. O Secretário de Segurança e Defesa José Huyg se espremeu entre seus colegas do Conselho para conseguir passar e alcançar o Imperador Jong. Seu semblante era tão preocupado que o Imperador se assustou e pediu licença a outro conselheiro com quem conversava para chamar José ao seu gabinete.

Sentados um de frente para o outro, José revelou toda a sua inquietação. Ele não esperou o Imperador terminar de ler a carta e contou que um planeta da Orla Interior do Império, Arokk, teria sido atacado por uma praga que dizimou a população. Ninguém sabia ainda qual a origem da praga, do que se tratava, apenas que não havia mais sinais da população vindos de lá.

Como um bom secretário, trouxe o problema junto com uma solução plausível: sob a aprovação do Imperador Jong, ele contataria seu melhor gestor de assuntos especiais e secretos para enviar uma equipe até Arokk e, não apenas descobrir o que aconteceu, mas resolver o problema. Jong concordou. Não queria que o assunto se espalhasse para não gerar pânico. Também não queria que a praga se espalhasse, então, pediu cuidado redobrado.

Naquela mesma noite, o Secretário José se encontrou com o senhor Ohm, líder da agência ultra secreta Olho do Infinito, localizada dentro de uma estação de spa flutuante num lugar qualquer da galáxia. Aquele senhorzinho simpático, de olhos puxados, era mais ágil do que qualquer um podia imaginar. Imediatamente após receber ordens, começou a organizar seus melhores agentes. Por um infortúnio do destino, todos eles estavam extremamente ocupados em outras missões muito necessárias.

Lembrou-se, então, de alguns jovens promissores que ouviu falar tempos atrás e decidiu testá-los para enviar a essa missão posteriormente. Antes, porém, de chegar a Lagum para encontrar Krýus Ákro do Clã dos Olhos Azuis, levou sua nave até à principal oficina de naves da galáxia para pequenos reparos. Quando, finalmente, retornou à agência, deparou-se com um grande urso que conseguiu adentrar à nave sorrateiramente. Isso poderia ser útil.

Krýus Ákro do Clã dos Olhos Azuis

O senhor Ohm reuniu-se individualmente com cada recruta para verificar suas habilidades. Eles eram péssimos. Mas não havia muito tempo, tinha que servir. Por um tempo que os recrutas não conseguiam contar isolados em uma arena separada para eles, Ohm os manteve treinando até a hora de partir.

Quando tudo já estava pronto para a missão, Luke, Kryos, Ringo, Melkor, Onok e o urso (cujo nome foi inexplicavelmente esquecido) encontraram-se na base secreta da organização Olho do Infinito. O enigmático e sereno senhor Ohm lhes apresentou uma missão urgente: o planeta Arokk, localizado na orla interior da galáxia, havia sido dizimado por uma misteriosa doença.

O objetivo era claro: investigar o que aconteceu e impedir que a ameaça se espalhasse. Cada agente recebeu 30 pings, a moeda oficial do Império, para aquisição de equipamentos e embarcou na nave Estrela do Entardecer, comandada por Drooz, um piloto androide poético e filosófico.

A viagem atravessou uma zona de dobra conhecida como Mente de Morgoo, um espaço psicodélico onde formas, linhas e cores se distorciam em padrões quase vivos. Alguns dos agentes foram afetados por alucinações sutis, mas rapidamente se recuperaram. Os demais, que não experimentaram os efeitos, não compreenderam o que havia acontecido, gerando tensão e incerteza.

Ao chegarem a Arokk, depararam-se com um planeta de beleza alienígena e inquietante. Embora fosse noite, o céu vibrava em cores pulsantes e hipnóticas. A vegetação parecia viva, emitindo uma luminescência rítmica, como se respirasse junto ao solo. Mas não havia corpos, apenas sombras carbonizadas, gravadas nas superfícies como memórias silenciosas de uma tragédia repentina.

Logo após o pouso, Melkor e o urso foram inexplicavelmente tomados por um estado de torpor profundo. Adormeceram lado a lado, sem qualquer sinal de despertar, e foram deixados sob os cuidados de Drooz enquanto os demais seguiram em missão.

Os agentes desembarcaram e, guiados por um sinal fraco vindo do leste, caminharam pela paisagem viva e onírica de Arokk. Subitamente, foram atacados por dois seres incorpóreos, de natureza fantasmagórica. Durante o confronto, Ringo foi tomado por um impulso agressivo, chegando a atacar seus companheiros. Perceberam que ele estava sendo manipulado mentalmente, e conseguiram libertá-lo ao destruir os invasores espectrais.

Diante da dúvida entre recuar ou seguir adiante, decidiram que a presença das entidades poderia indicar a proximidade de algo importante. Seguindo o sinal, chegaram a uma formação rochosa translúcida, que escondia uma cúpula misteriosa. A entrada parecia quase um convite – ou um aviso.

Dentro, a iluminação era fraca, e o ambiente reverberava com ecos e sussurros incompreensíveis, diferentes para cada mente. Era claramente um templo, mas sua função ia além do religioso, algo entre o tecnológico e o espiritual. Lá, uma entidade se apresentou: o Guardião Mental de KELAA, uma inteligência alienígena que só conseguia se comunicar com alguns dos personagens, despertando suspeitas e fascínio.

Através de interações com o Guardião, ouviram um enigma:

“Entrar no Templo dos Sussurros ou sair vivo daqui.
O que você procura pode não ser o que você pensa que é.
Encontre as respostas nas paredes,
Mas cuidado com a sua mente: ela é traiçoeira.”

Enquanto exploravam o interior do templo, encontraram registros nas paredes, enigmas que eram mensagens deixadas por cientistas locais antes do colapso. Foi então que descobriram que a doença que devastou Arokk não era biológica. Era, na verdade, um parasita psíquico, vinculado a um artefato antigo. Compreenderam também que os habitantes do planeta não haviam sido destruídos, mas pareciam ter sido absorvidos, fundidos ao próprio pulsar vivo do planeta.

Nesse momento, uma forma corpórea do Parasita Psíquico manifestou-se. Um ser tentaculoso, de voz hipnótica e presença opressora, projetava o medo mais íntimo de cada agente. Apesar da dificuldade do confronto, o grupo reagiu com habilidade, fragmentando e eliminando sua forma material.

Após o embate, KELAA revelou que aquela era apenas uma manifestação secundária. A verdadeira entidade ainda se encontrava selada no artefato original, escondido nas profundezas do templo. As armas para enfrentá-la, porém, estariam ali também prontas para serem encontradas pelos dignos aventureiros.

Exaustos e com mais perguntas do que respostas, os personagens optaram por retornar à nave para descansar. Utilizaram magia para protegê-la durante a noite, garantindo que pudessem repousar com segurança. O próximo passo? Penetrar ainda mais fundo na mente do planeta e desvendar os segredos que dormem junto com os ecos de Arokk.

O amanhecer em Arokk, no entanto, não trouxe paz. O céu dançava em espirais nervosas. A vegetação, antes pulsante em ritmo sereno, agora vibrava com espasmos irracionais. O solo gemia, como se o próprio planeta gritasse.

Onok compreendeu que o colapso planetário estava diretamente ligado ao Parasita Psíquico. Enquanto a essência dele estivesse viva, Arokk seguiria desmoronando. Então, apesar de o urso (que ninguém lembrava o nome) e Melkor permanecerem em sono profundo, Kryos, Ringo, Onok e Luke decidiram continuar a missão, retornando ao Templo dos Sussurros.

Apesar de estar junto na missão, Luke parecia estar distante, ficava com o olhar perdido e não interagia com o grupo. Era como se não estivesse presente.

Enquanto seguiam para o leste, na direção do templo, o chão tremia. De repente, fendas se abriram sob seus pés, liberando vapores coloridos e gritos que não pertenciam a garganta alguma. Vozes… de memórias? Por uns instantes, os nobres aventureiros ficaram atordoados, mas continuaram ainda com mais vontade para resolver a questão.

Uma projeção translúcida surgiu no céu, com a voz fragmentada de KELAA dizendo “O tempo escoa… A resposta está dentro… Libertem-nos… ou perecerão”. Eles correram ao templo e tiveram aquela mesma experiência ao passar por algo que parecia uma porta maciça.

O quarteto se lembrava de que as armas para destruir o Parasita Psíquico estavam ali dentro do Templo dos Sussurros, mas não faziam ideia de como encontrá-las. A presença de KELAA, então, os guiou por corredores que se moldavam como pensamento líquido. Cada parede carregava vozes, e as sombras ecoavam sentimentos.

Ao final de um corredor, se depararam com três portas. Ringo fez uma magia para guiá-lo na escolha e proteção. Assim, entraram pelo portal mais próximo a ele e, imediatamente, todos os quatro tiveram visões tão vívidas que pareciam reais. Ouviram a voz de KELAA dizer “Uma figura conhecida. Perdida no passado. Ela está ali. Sorri para você.” e cada um precisou enfrentar sua própria fuga da realidade para conseguir se libertar do torpor. O prêmio conquistado por eles foi a Lança da Memória Viva, que Ringo empunhou.

A segunda porta também lhes despertou visões. Dessa vez, ouviram “Um futuro ideal. Tudo o que você sempre sonhou. Apenas aceite.” e tiveram que lutar para se desprender de seus sonhos e perceber que estavam em missão. O que quer que eles falassem ou fizessem enquanto tinham as visões, sem perceber, eles também faziam no mundo real. Alguns puxaram armas, outros beberam o que achavam ser poções (mas eram água). Quando, finalmente despertaram, receberam o Escudo da Clareza, que ficou sob os cuidados de Kryos.

Por fim, ouviram de KELAA que ainda faltava uma arma e entraram na última porta. A Câmara do Sacrifício lhes falou “Uma barganha. ‘Fique comigo e salve quem ama. Só isso.’” enquanto cada um precisava aceitar ou recusar a barganha em suas visões. Nem todos foram fortes o suficiente, mas Luke que, misteriosamente despertou de seus devaneios, trouxe os demais à realidade. Assim, ele garantiu a Lâmina do Eu Verdadeiro.

Assim que empunhou a espada, uma porta ao fundo da sala se abriu e os aventureiros correram por ela até um salão enorme com um pé direito muito alto. O coração do templo, escuro, sem tempo e sem chão. A única coisa que eles viam era o artefato (que se assemelhava a uma ampulheta) bem no meio, se é que havia um meio. De dentro dele o Parasita se revelou: tentacular, abstrato, com mil olhos e nenhuma forma fixa. Eles conseguiam perceber (sabe-se lá como) que cada pensamento que tinham… ele sentia.

Luke, Ringo e Kryos avançaram contra o inimigo com suas novas armas, enquanto Onok usava suas flechas à distância contra o artefato. No entanto, não demorou muito para que o templo começasse a ruir. Abaixo dos pés, tremor. Acima da cabeça, pedras caíam.

Com seu poder traiçoeiro, o Parasita Psíquico os deixava apavorados e atordoados. Em determinado momento, Kryos e Ringo pararam de lutar contra seu inimigo comum e passaram a brigar entre si, inclusive com as poderosas armas para destruição do Parasita.

Luke e Onok ouviram a voz de KELAA, mais humana, mais livre, fazendo um último pedido: “Posso fundir-me ao planeta e mantê-lo vivo. Mas preciso… de um de vocês. Um só.”.

Cada vez que Onok acertava uma de suas flechas no artefato, mesmo mundanas, o Parasita gritava e se irritava mais. Por fim, o artefato se desfez e o monstro sumiu, se desfazendo como fumaça. O Templo, então, apesar de se iluminar levemente, já estava em avançada destruição. Os jovens aventureiros precisavam tomar uma decisão: fugir ou atender aos apelos de KELAA.

Luke, o mais bravo de seu povo, ergueu a voz e se entregou à inteligência. Nesse mesmo instante, fendas começaram a se fechar e as pedras pararam de rolar. Tudo ficou calmo. Silêncio. Até Ringo e Kryos voltaram ao seu normal (exceto pelo fato de Kryos ter cegado o amigo com suas unhas durante a batalha). Feridos e cansados, permaneceram quietos por alguns minutos.

Iluminado e com olhos mais vibrantes, Luke começou a falar. No momento que decidiu permanecer em Arokk, KELAA se fundiu à sua mente. O jovem se tornou um avatar da inteligência e tudo ficou claro como a água do rio mais limpo de seu planeta. Contou, então, como tudo começou, se desenrolou e virou um caos, quase exterminando todo o planeta.

Luke Artreides

O jovem Luke contou aos companheiros que, há algum tempo, caçadores de recompensa retornaram de uma expedição para além do Império e trouxeram o artefato. Não sabendo para que servia, eles e alguns cientistas estudaram-no de diversas formas. Conforme os dias iam passando, eles e as pessoas com quem conviviam se tornaram ríspidas, depressivas e briguentas. Alguns lutavam entre si até a morte, muitas vezes, sem nem lembrar ou saber o motivo da briga.

Diante de tantas doenças mentais que surgiram, os cientistas de Arokk procuraram KELAA para auxiliar na solução do problema. Por isso, as paredes do templo continham frases e cálculos. Não houve tempo para chegar a um consenso. Todos foram tomados de rancor, ódio e tristeza… até virarem sombras e se tornarem parte do planeta. Arokk ruía enquanto o Parasita reinava, sugando todas as suas forças.

Com o Parasita Psíquico fora do planeta, agora seria possível buscar uma forma de trazer os moradores de volta à vida. Mas Luke deveria ficar e buscar essa resposta, sem nunca mais sair de Arokk provavelmente.

Um ou outro aventureiro também quis ficar, mas, por fim, Luke ficou só enquanto seus companheiros retornaram à nave e reportaram tudo isso ao Sr. Ohm por meio do andoide Drooz. Se o planeta foi completamente restaurado, e o que aconteceu a Luke, Onok, Kryos, Ringo e aos dorminhocos, só o tempo poderá dizer.


Leia o conto que eu publiquei na Iniciativa T20 da Jambô Editora

Brasil no Oscar: veja como foi a coletiva de imprensa de Ainda Estou Aqui

“Com certeza, [O OSCAR] foi muito melhor que o de 99” (SALLES, Walter)

Ainda sob os efeitos etéreos do resultado do Oscar 2025, Walter Salles, Fernanda Torres e Selton Mello participaram de uma coletiva de imprensa no dia seguinte, na segunda-feira (3 de março), e a gente estava lá para conferir tudo.

Coletiva de imprensa Ainda Estou Aqui – 3 de março de 2025

Eles estão muito felizes – ÓBVIO -, mas também estão muito cansados. Não foram poucas as vezes que o Selton e a Fernanda pediram um café e disseram que, depois dessa ultramaratona de divulgação do filme, eles precisam voltar para casa e dormir. Fernanda até brincou falando que, agora, quer fazer gastronomia e gravar um programa, num lugar paradisíaco, em que eles vão avaliar os pratos e não precisarão fazer mais nada.

Walter comentou que perdeu o papel com seu discurso e precisou improvisar na hora que recebeu a estatueta. No entanto, ele fez um resumo para nós e frisou que, no final, ele falaria em português BR algo como “Viva a democracia!” e “Ditadura nunca mais!”.

Reforçaram, também, a importância de filmes como esse e outros ganhadores, como No Other Land, brindando o mundo com assuntos importantes que não podem ser esquecidos. Além de realçar a importância do cinema independente que ganhou um grande destaque nesta edição do prêmio.

Infelizmente, não houve tempo para responder a pergunta que eu enviei, mas, indiretamente, Selton Mello respondeu quando contou sobre os efeitos que essa avalanche Ainda Estou Aqui trouxe para o cenário do cinema brasileiro: comentou sobre jovens sonhadores que, agora, decidiram estudar cinema porque viram que é possível seguir os seus sonhos.

É evidente o recado que tudo isso deixa para o mundo: a história da família Paiva não será esquecida, está viva, como algo que não pode mais se repetir. Em um momento tão crítico como o que vemos se desenrolando no cenário mundial, a mensagem é clara.

Para mim, particularmente, quando assisti ao filme e escrevi minha crítica aqui, sonhava com prêmios, mas não imaginava a repercussão que o longa teve no mundo todo. Minha alegria com tudo isso é imensa! Meu TCC da faculdade de jornalismo falou sobre um filme vencedor de Oscar que foi uma adaptação de livro (Spotlight) e também trazia para a luz um cenário que deveria ser combatido.

Não deixemos de falar sobre Ainda Estou Aqui, sobre histórias que precisam estar vivas para não se repetirem, sobre sonhos que também precisam estar vivos e se realizando pelos jovens e pelos velhos! Obrigada, Walter, Fernanda, Selton e todos que fizeram isso acontecer!

Texto publicado originalmente no portal Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2025/03/04/brasil-no-oscar-veja-como-foi-a-coletiva-de-imprensa-de-ainda-estou-aqui/

Épico e aquático – O preço de uma cidade grande

O choque cultural continua para Helga enquanto ela e os demais Desafiantes de Yuvalin atravessam Valkaria. Além disso, a desigualdade e os dramas sociais estão cada vez mais aparentes.


Mal saímos no meio daquele mundaréu de gente, de cacofonias e cheiros estranhos, passando por aquela praça que passei ontem, vozes extremamente harmoniosas e bonitas chamaram a atenção de um grupo grande de outras pessoas. E da gente também. Eram clérigas de Marah cantando e dançando no meio da praça.

Os meninos ficaram doidos. Leah começou a rosnar (?) para o Kroll quando ele viu uma outra moreau leoa no meio das clérigas. Pela primeira vez, vimos nosso amigo suar a vera. A coisa ficou, ainda, mais complicada quando, de repente, elas começaram a se despir. Isso mesmo, elas ficaram nuas no meio da praça enquanto riam, cantavam e dançavam.

Eu olhei meio confusa para os lados, pensando se isso era algo realmente comum em cidades grandes. Sei lá! Vai que as pessoas simplesmente ficam nuas nas ruas e isso é algo normal em absoluto. Eu sou uma jovem do interior, nunca vi nada parecido.

Entretanto, aparentemente, não era algo tão comum assim, porque várias pessoas que estavam assistindo ao show começaram a gritar que o que elas faziam era um absurdo e um atentado ao pudor. Eu fiquei, sinceramente, aliviada. Não queria seguir o ritual.

Não tardou para que a guarda intervisse. Eles chegaram a bater nelas com bastões de guarda para dispersar o show. As moças saíram catando as roupas e rindo, como se fossem ninfas. Foi uma cena chocante e surreal. Perguntei ao Toshinori, que estava sorridente e extasiado, se era sempre assim em Valkaria. Ele deu a resposta mais vaga possível. Era a tal da liberdade.

Puxei o cercadinho para que continuássemos a jornada. Queríamos chegar logo à fazenda da família do Toshinori. O show tinha acabado mesmo, era mais que hora de seguir.

Conforme avançamos, as casas foram ficando, digamos, mais feias. Tudo começou a ficar bem irregular, ruas começaram a ficar estreitas. Nos deparamos com um prédio enorme de pedra, a Rocha Cinzenta, prisão onde estariam reunidos os piores criminosos do Reinado.

Aos poucos, as casas deram lugar a barracos e as ruas, a vielas. Uma explosão aconteceu de um lado do caminho e me deu um susto, mas era só um goblin todo chamuscado tentando construir alguma coisa. Estávamos na Favela dos Goblins.

É até difícil descrever a Favela dos Goblins

Em alguns becos, vimos cenas deploráveis de pessoas jogadas nas ruas. Usuários de entorpecentes, provavelmente, achbuld. Muito triste ver os caminhos terríveis que a liberdade também pode levar.

A engenhosidade dos goblins, por outro lado, era cheia de itens inusitados. Vimos casas feitas inteiramente de portas, outras feitas de tudo aquilo que sobra de uma engenhoca, até mesmo uma casa que, simplesmente, ganhou rodas e saiu pela rua, quase nos atropelando. O goblinzinho teve a audácia de pronunciar alguma expressão que eu acredito ter sido um xingamento. Ao que Toshinori respondeu à altura.

Pelo que o paladino falou, a casa dele na fazenda era para apoiar os goblins que viviam na região. Então, ele mandou chamar o governante de nome engraçado que eu não gravei, empregado responsável por todo o serviço da fazenda.

O tal goblin apareceu depois de um tempo, enquanto andávamos, com as mãos nos flancos e uma cara fechada. Até ver Toshinori. Ele até chorou e gritou de emoção ao ver nosso amigo. O paladino abraçou-o bem forte e o pobrezinho quase ficou sem ar, saudando com saudade e alegria. Eles conversaram por alguns momentos e, depois, nos apresentou.

Aproveitei para perguntar, é claro, se ele sabia sobre os podres de Toshinori. Ele ia falar algo, mas o paladino não deixou o goblin continuar. E, então, eles começaram a nos conduzir à frente, rumo à fazenda. O cheiro da favela era péssimo, porém, eles disseram que o bairro melhorou muito.

Ache estranho ou não, na mesma viela onde estávamos, que devia ser uma principal da favela porque era mais larga, nos deparamos com outro grupo de aventureiros. Só que eles eram bem pouco discretos e estavam rindo de tudo e fazendo uma bagunça no lugar. Chutaram uma poça de lama para atingir uma criancinha goblin e, simplesmente, riram. Bom, a criancinha também riu deles depois.

Quem eles pensavam que eram? Toshinori tentou intimidá-los e, de repente, surgiram vários goblins enormes e bugbears empunhando armas e falando algo no idioma deles que eu não compreendi, mas percebi que era uma grave ameaça. Batendo sua arma no chão, o paladino gritou para que os aventureiros deixassem as coisas e partissem, para que as coisas não piorassem para o lado deles. Eu fiquei com medo.

Eles não quiseram deixar seus pertences, obviamente, apesar da ameaça. Então, Toshinori pegou a camiseta da criança goblin, suja de lama, e tentou esfregar na cara deles. Mas eles não deixaram e pediram para deixá-los apenas ir embora. A gangue de goblins enormes e outros seres gritou mais alguma coisa ininteligível e meu amigo nos incentivou a, simplesmente, deixar para lá e irmos embora, como se não tivéssemos visto nada.

Como eu não entendi do que se tratava, só aceitei a recomendação do nosso paladino e o segui. O único que parecia ter entendido também era Stefan e ele estava ansioso para sair dali. Alguns segundos depois, um barulho altíssimo de armas disparando foi ouvido e, então, entendi do que se tratava. Não me dignei nem a olhar para trás.

Estava assustada e Stefan tentou me convencer de que aquilo era natural. Definitivamente, não era. Mata-se apenas para sobreviver, para se alimentar e quando há uma ameaça com quem não se consegue resolver na conversa. Não é natural matar só porque fizeram algo de que não se gostou.

Continuamos andando, eu em reflexões. Preferia viver na pequena Yuvalin, ao lado de Goro e em situações menos absurdas que as que presenciei em Valkaria. Definitivamente, eu não servia para morar em uma cidade tão grande.


Assista ao vídeo sobre essa parte da história no canal do Qual é a do RPG?: https://youtu.be/tGEzr0s2uoE

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Até breve!

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Épico e aquático – A cidade barulhenta

Helga e os Desafiantes têm um desafio enorme: atravessar Valkaria. Nem eles têm noção da bagunça que pode ser isso. Mas eles têm uma missão, é bom sempre lembrar isso.


Nós fomos tapeados – para variar. Era meio óbvio que em Valkaria isso aconteceria. Me surpreendo, na verdade, por ter sido tão pouco. Dado o nosso histórico, qual a chance de não sermos tapeados, pelo menos, umas 200 vezes em apenas um dia?

Dessa vez, foram crianças. Quem suspeitaria? Tanta gente se esbarrando em mim e em todos nós, só senti minha mochila ficando mais leve, moedas estalando no chão e crianças correndo e gritando. Perdemos valores consideráveis, no entanto, era praticamente impossível alcançar os ladrões com aquela quantidade absurda de gente que eu nunca tinha visto em toda a minha vida.

O bairro Mercado da barulhenta Valkaria

Kroll e Joseph tentaram correr atrás dessas crianças benditas, mas sem muito sucesso. Ainda demorou um tempão até nos encontrarmos outra vez. Consegui colocar o pessoal de volta ao cercadinho na loja Império Bélico. Tive uma leve discussão com Stefan, também para não perder o costume, sobre as razões de ir para aquela loja e sobre nos separarmos no Mercado. Como sempre, Stefan sabendo ser bem insuportável. Ele disse querer itens, mas foi direto ao ponto quando perguntou sobre o leilão em Aslothia.

O anão ferreiro da loja não fazia ideia e não queria saber qualquer coisa sobre aquele lugar. Aproveitei para perguntar se, mesmo que ele não fizesse negócios por aquelas bandas, alguém que ele conhecia faria. O anão respondeu que um longo passeio pelo Mercado nos faria conhecer. Isso não ajudou muito.

O que não ajudou muito também foi Toshinori querendo empurrar as pedras de aço-rubi para o anão. Stefan, ainda, conseguiu ofendê-lo com a menção de que Zakharov estaria mais evoluída que o nosso anfitrião. O anão se sentiu desafiado a mostrar suas belezuras a todo o grupo e eu tentava, sem sucesso, fazer os meninos focarem na nossa missão. Não fazíamos ideia de quando aconteceria o leilão, então, não podíamos mais perder tempo.

O arsenal era, realmente, diferenciado. Fiz questão de lembrá-los sobre a total responsabilidade deles em recuperar suas armas, caso perdessem. Ainda mais sem dinheiro, depois do causo com as crianças. Joseph, inclusive, estava do lado de fora, tocando e cantando para tentar recuperar algum valor.

Nos encaminhamos para uma taverna, a Boca Cheia. Jantamos juntos e, antes de eu me alojar em algum canto, passeei por uma praça próxima, a fim de encontrar algum pássaro que pudesse levar mais uma carta para Goro. Queria contar brevemente sobre as últimas notícias: o encontro com meu pai e nossa chegada a Valkaria.

Com tantas pessoas mendigando comida nas praças, eu tive medo de dormir ao relento e precisei fazer crescer árvores frutíferas para que essas pessoas não avançassem em mim. Encontrei um pombo que me pediu apenas grãos para fazer o serviço e enviei a carta. Mas confesso que descansei um grande nada na taverna. Pensei em dormir no telhado, mas o taverneiro não deixaria. Muito barulho do lado de fora, aquela cidade nunca dormia. Me senti como se estivesse tentando dormir abraçada à forja central de Yuvalin.

Com saudade do quarto do Goro, de manhã, apesar das grandes olheiras que eu tinha no rosto, os meninos pareciam ter dormido como reis. Acredite se quiser, foi Stefan quem pagou a estadia de todos. Após o café da manhã, saímos novamente para aquela muvuca desenfreada, para chegarmos à casa dos pais de Toshinori.


Assista ao vídeo sobre essa parte da história no canal do Qual é a do RPG?: https://youtu.be/tGEzr0s2uoE

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Até breve!

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Épico e aquático – A cidade sob a deusa

Depois do susto, é hora de seguir viagem. Os Desafiantes de Yuvalin têm um longo caminho pela frente e a Helga tem um mundo todo desconhecido para descobrir.


Começamos nossa viagem em direção à cidade sob a deusa, Valkaria. Climber, o burro, me convidou, depois de um tempo, para seguir viagem sobre seus lombos. O pequeno Joseph, com suas perninhas cansadas, já estava montado há alguns quilômetros e, confesso, eu estava tão cansada que decidi aceitar. Não é muito do meu feitio fazer esse tipo de coisa, a não ser em situações extremamente necessárias.

Não demorou muito para que ele ficasse cansado, coitado. Descemos e eu cuidei dele, enquanto andávamos: fiz carinho, dei água e comida, conversei com ele. Depois de muitas subidas e descidas, avistamos uma grande mão e, quanto mais andávamos, mais a estátua de Valkaria tomava forma.

Sobre uma colina, era uma visão completamente diferente de tudo o que eu conhecia. A vista de cima de uma cidade muito maior era espetacular. Villent, Zakharin e Yuvalin, por maior que fossem, nunca se comparariam à grandiosidade daquela megalópole à nossa frente. Tudo era tão cheio, tão grande, tão desorganizadamente organizado, barulhento.

A cidade de Valkaria

Em uma descida, Toshinori, que cresceu em Valkaria, quis se exibir para nós, nos mostrando do que era feita a cidade. Bom, pelo que ele apresentou, adultos costumam quebrar carrinhos de madeira de crianças. Mais uma vergonha alheia que os Desafiantes me fazem passar em público. Já estou acostumada. Joseph quis fazer o mesmo, mas não quebrou o carrinho, apenas desceu a toda velocidade o morrinho em pé sobre o carro de madeira. As crianças amaram o bardo de cabelo rosa.

A cidade abrigava gente de todos os jeitos, etnias e raças. Algumas, eu só vira em imagens nos livros da escola em Villent. Tive que pedir para que os meninos focassem na missão, porque, quando passamos pelo estabelecimento Lua Incandescente, as sulfures, as sílfides, goblinoides, mulheres com curvas à mostra, começavam a se insinuar para eles.

O paladino falou que estava, na verdade, esperando encontrar uma outra goblinoide, que, talvez, ele tenha deixado sem avisar em Valkaria. Então, eu consegui convencer a todos a seguirmos pela cidade, de acordo com o plano. Foi nesse momento que tivemos uma grande revelação sobre Toshinori. Algo que nunca nem imaginávamos. Além de ele nos contar que tinha pai e mãe vivos, ele nos levaria até a casa deles para descansarmos. Ficamos chocados.

Depois de todo esse tempo juntos, eu me dei conta de que ainda conhecia bem pouco sobre meus companheiros. No nosso ramo de trabalho, precisamos confiar quase cegamente uns nos outros. Eles me protegem e eu cuido deles, isso basta. Entretanto, conhecê-los um pouco mais era bom. Então, enfim, nos tornávamos amigos.

Eu realmente estava muito assustada com todo aquele movimento, tanta gente indo e vindo, tanto barulho e cacofonias. Tudo isso, enquanto nem tínhamos entrado pelas muralhas da cidade. Os guardas fizeram pouco de quem éramos, de onde vinhamos e para onde íamos. De repente, estávamos vivendo aquilo: entramos em Valkaria.

Entramos no bairro da Cidade da Praia, seguindo Toshinori, que era quem conhecia o local. Como percebi que logo alguém ia querer fuxicar pela cidade e tentar descobrir tudo o que ela poderia oferecer a nós, principalmente o Stefan, fiz crescer algumas plantas que davam umas fibras bem fortes e juntei-as em uma corda, formando uma espécie de cercado para que todos andássemos juntos. Conhecendo meus amigos como eu conhecia, todo cuidado era pouco e quem se comporta como criança, às vezes, deve ser tratado como criança.

Falei logo de Stefan porque ele foi o primeiro a querer ir conhecer os druidas da Cidade da Praia. Eu briguei com ele para que ele não saísse do cercadinho e fiquei me questionando o que algas ele queria com aqueles caras. Até o Toshinori desaconselhou o inventor a ir tentar conversar com os druidas, disse que eram estranhos. Faço ideia do que ele quis dizer com isso.

Enquanto discutíamos, um hynne em uma carroça nos interpelou, dizendo que nos levaria a qualquer lugar por um valor. Só não nos disse o valor. Disse que, sabendo para onde seria, diria o valor. Nem deu tempo do moço responder quando Toshinori falou sobre a fazenda dos pais. Subitamente, parece que todos os carroceiros de Arton estavam gritando ao nosso redor que fariam o menor preço para nos levar ao nosso destino. Parecia uma feira, ou até mesmo um leilão.

O caos estava instaurado. Não conseguíamos nos desvencilhar de forma alguma daquela loucura. Devia ser pior que a mente do Stefan. Foi, então, que eu me distraí com o assunto dos burros, cavalos e trobos, fiquei conversando com eles sobre a cidade, sobre de onde eles tinham vindo, sobre o trabalho deles. Eles disseram que o trabalho era bom, davam comida boa.

Não sei exatamente o que Edward fez, mas ele conseguiu puxar a gente para fora daquele burburinho. A bagunça e gritaria ficou para trás. Aos poucos, a Cidade da Praia também ficou para trás e entramos no bairro Recomeço. Era um lugar pomposo, as luzes acendiam magicamente nos postes. Casas nobres, mansões, ladrilho. Apesar disso, as pessoas ainda eram bem diversas, não tendo apenas nobres no lugar.

Eu estava encantada com tudo aquilo. Era muito mais do que os lugares mais nobres de Yuvalin. Era lindo. Todos se vestiam tão bem. Nós vestíamos, praticamente, trapos. Aos poucos, isso começou a despertar o interesse de soldados. Eles começaram a fazer perguntas, nos revistar e a nos conduzir em direção ao Mercado.

Um senhor parou Joseph no meio do caminho prometendo torná-lo rico e famoso. O moço maltrapilho disse que ele era perfeito para uma peça. O pobre bardo já começou a sonhar e a murmurar sobre dinheiro e mulheres e iates – eu nem sei o que é um iate, imagino que nem ele. Olhei mais atentamente para o velhinho e vi suas mãos mexendo suavemente, como que conjurando uma magia arcana.

Respirei fundo e pedi por um milagre a Allihanna. Precisei dar alguns tapas na cabeça e nas costas do Joseph para que ele despertasse do torpor. O moço jurava que não estava enganando, obviamente, que queria aquele galã como principal na peça. Até olhei ao redor para verificar se havia alguém bonito por perto. Todos tentamos ajudar o bardo a desacreditar o velho, até Stefan puxou a arma e ameaçou o senhor. Não tentei impedir o inventor, mas parei para perceber se alguém fora do nosso cercadinho tinha notado aquilo.

Finalmente, conseguimos arrastar Joseph para fora daquele golpe óbvio em formato de peça super famosa. Tiramos o velho do nosso encalço e rumamos para o bairro do Mercado. Quase fiquei surda com o barulho que nos recebeu.

Se nos outros bairros tudo já era muito barulhento, ali, eu fiquei tonta com a baforada quente da multidão e toda aquela vozearia. Barraquinhas, lojas, gente anunciando produtos, tavernas. O cheiro da cidade estava se impregnando nas nossas roupas, eu estava assustada e ainda bem que eu tinha feito o tal cercadinho, do contrário teria me perdido.

Toshinori estava confiante, por outro lado. Ignorava os vendedores e pedintes. Eu estava crente que ele já estava nos levando em direção à fazenda dos seus pais, mas ele, simplesmente, entrou em uma loja de licores, beijou a careca do vendedor e nos ofereceu uma dose. Além de, é claro, cantar e dançar com os bêbados caídos na entrada da loja.

Como eu não estava acostumada com licores, cheirei o copinho, o perfume doce, além do álcool. Era bom. Eu tomei e achei uma delícia. Distraída, não notei que Stefan derramou a bebida e, como consequência, tomou foi um soco na cabeça do vendedor, para ele aprender a não desperdiçar o que é dado de graça. Toshinori ficou revoltado. Eu, é claro, como já conhecia meu grupo, fingi apenas que não era comigo e continuei tomando meu licorzinho em paz.

O inventor louco, de forma instintiva, ignorou o que quer que tenha acontecido ali na loja, apesar da dor, e só saiu andando pelo mercado. Eu tive que correr para acompanhá-lo e, ainda, arrastar todo mundo para que não nos perdêssemos. Não quero nem imaginar o que seria de nós se qualquer um dos Desafiantes de Yuvalin se perdesse no meio do Mercado de Valkaria.


Assista ao vídeo sobre essa parte da história no canal do Qual é a do RPG?: https://youtu.be/tGEzr0s2uoE

Continue aqui no Blog para saber o que acontece nos próximos capítulos desta jornada.

Até breve!

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Qual é a das quintas? entrevista: Igor Pires

Durante a 9ª Festa Literária Internacional de Maricá, que você pode ler sobre minhas experiências clicando no link do post aqui, tive a incrível oportunidade de conversar com vários autores. Entre eles, bati um papo com Igor Pires, autor de Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente e Todas as coisas que eu te escreveria se pudesse, sobre sua vida e sua obra.

Você vai conferir um resumo aqui, mas já aviso logo que essa entrevista já está disponível na íntegra no Qual é a dos podcasts?.

Igor Pires, autor

Aline Gomes – Qual é a das quintas?
Qual é a sua maior inspiração para escrever?

Igor Pires
Eu acho que minha maior inspiração são as pessoas. Sou apaixonado por pessoas. E isso é muito engraçado, porque eu amo, por exemplo, ir pros lugares e conversar com pessoas desconhecidas e perguntar da vida, da história da pessoa, o que as motiva, sabe? E acho que eu sempre tive esse senso e esse instinto de querer conhecer mais as pessoas. É muito sobre mim, mas também é muito sobre a experiência humana que é estar nesse mundo, sentindo muitas coisas e vivendo muitas coisas. Eu acho que, obviamente, a história da minha família, dos meus pais, das pessoas ao meu redor, do que eu observo de suas vidas, acaba se tornando fonte de inspiração pra mim, pra eu escrever o meu trabalho. Mas eu acho que tudo me inspira.

Aline Gomes – Qual é a das quintas?

Como você vê o seu público interagindo com a sua obra? Você é um influenciador. Várias pessoas, eu imagino, que devam admirar o seu trabalho e também interagir com você. Como é essa troca que você tem com as pessoas?

Igor Pires

Escrever um livro é um processo bastante solitário, porque é um lugar onde você tem que mergulhar em você mesmo muitas e muitas vezes, e, às vezes, são mergulhos muito profundos. Você acaba, às vezes, perdendo de vista o mundo ao seu redor. Eu acho que a pandemia também trouxe esse aspecto de fazer com que as pessoas fiquem cada vez mais em casa, às vezes mais reclusas. Quando eu fui pra Bienal e quando eu saio para fazer eventos que eu vejo que as pessoas estão lá e que as pessoas, realmente, vêm me ver, elas querem um autógrafo, elas querem conversar, eu fico espantado. Porque é você sair de um lugar de solidão para ir a um lugar onde muitas pessoas sentem a mesma coisa que você. Óbvio, não sentem a mesma coisa, mas sentem a mesma sensação. Isso me enche de orgulho. Eu escrevo porque eu tento curar o mundo, mas eu não consigo. Mas se eu mudar a vida de uma pessoa, acho que eu estou mudando o mundo.

Aline Gomes – Qual é a das quintas?

Como é pra você estar num evento como a Flim?

Igor Pires

Eu acho que é minha primeira Feira Literária Internacional e eu me senti muito honrado. Sei que, às vezes, eu duvido um pouco do meu trabalho. Então, percebi que as pessoas pensam em mim, gostam do meu trabalho. Eu acho que é sempre uma realização pessoal, uma realização profissional. E eu estou amando. Estou sendo super bem tratado. As meninas disseram que tem bastante gente pra me ver, não pra me ver, mas pra acompanhar a mesa. E acho que é um baita privilégio.

Aline Gomes – Qual é a das quintas?

E é um prazer estar conversando aqui com você! Que conselho que você daria para as pessoas, tanto que te leem, quanto as que querem continuar seguindo seu trabalho, continuar fazendo o seu próprio trabalho, continuar sonhando e vivendo as emoções que você expõe, todos esses temas que realmente são importantes serem tratados e que, muitas vezes, não é dado o devido valor?

Igor Pires

Vou dar um conselho que eu acho que é não só pra quem quer escrever, quem quer entrar nesse mercado, mas pra vida. Caminha que seus caminhos se abrem. Eu falo: “escreva, comece”. Porque a gente está sempre assim “é tarde para começar”. Comece agora! Caminhe, dê o primeiro passo. Acho que é isso.

Sobre o autor

De acordo com sua assessoria, Igor Pires possui uma coletânea de seis livros e, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos e considerado o autor mais lido em 2020, sua publicação mais recente é Este é um corpo que cai mas continua dançando, que figura entre os mais vendidos de ficção no Brasil.

Igor Pires é escritor, publicitário e criador do projeto Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente. Começou escrevendo textos para a internet ainda na adolescência e, nos últimos anos, criou uma comunidade fervorosa de leitores amantes da poesia e da literatura jovem. Nascido e criado na periferia de Guarulhos, se formou em Publicidade e Propaganda, onde descobriu sua paixão pela comunicação e pelas redes sociais.

Primeiro final de semana da Flim 2024 entrega experiências memoráveis

Gosto muito de uma frase que li esses dias, tanto que coloquei no meu site profissional e nos marcadores de livros que levei para a Flim: “Imaginamos o que não existe para criar o que sonhamos” (autor desconhecido). A 9ª Festa Literária Internacional de Maricá me trouxe para esse lugar de sonhar e imaginar, e não podia ser diferente quando o homenageado era ninguém mais e ninguém menos que Ziraldo.

“Ziraldo era um especialista em infância (…) e o maior artista plástico do Brasil” (Aroeira).

Ziraldo, homenageado da Festa

Infelizmente, só consegui participar mesmo do primeiro final de semana da Festa, mas trago aqui algumas das minhas descobertas e um (nem tão) breve resumo de como foi a experiência.

Para quem não conhece, a Flim é produzida pela Prefeitura de Maricá, é totalmente gratuita e com incentivos das secretarias de Educação e Cultura. Os alunos da rede pública e de programas, como o Passaporte Universitário, recebem vouchers para comprar livros. Além disso, outras secretarias municipais participam com instrução e serviços aos munícipes e visitantes.

A programação deste ano trouxe nomes excepcionais e eu tive a oportunidade, também, de conversar com algumas autoras moradoras de Maricá. A Laura Costa, por exemplo, foi secretária de educação na década de 1990 e trouxe Ziraldo para a Bienal do Livro na cidade. Para ela, que escreveu dois livros, o evento é uma ótima oportunidade para difundir a leitura na população, uma vez que Maricá não possui livrarias, apenas bibliotecas públicas nas escolas.

Essas autoras me contaram sobre o sonho de escrever, como chegaram a publicar e, além disso, as temáticas que envolvem seus trabalhos, sempre trazendo a importância de falar sobre assuntos que precisam ser mais difundidos, inclusive, na infância. Joselene Negra Black fala em poesias, contos e crônicas sobre inclusão e representatividade da mulher, do negro e TEA. Ana Luísa Magalhães estava extremamente feliz por participar da Flim e ofertar seus livros de poesia sobre mulheres e para mulheres, e um infantil que é inspirado em sua própria filha.

Luciana Pinheiro, Liliane Mesquita e Danielle Viana me contaram sobre suas lindas trajetórias no mundo da escrita, tendo o estar na Flim vendendo seus livros a realização de um sonho. Elas abordam em suas produções a fome, a pobreza, o abuso sexual infantil, educação parental e dicas para viver nos dias atuais.

A autora Andreia Prestes esteve em uma roda de conversa junto com o professor e doutor Celso Vasconcellos, quando falaram sobre a importância de resgatar a memória familiar e identidade coletiva. Dentre os assuntos tratados no encontro, destaco a necessidade de manter a memória da população acesa e a apresentação para a criança e o jovem daquilo que ainda não é difundido, a abertura para todos os temas. Andreia, por exemplo, é autora do livro infantil “Era uma vez um quintal”, em que conta sobre João Massena Melo, seu avô, que, um dia, saiu de casa para uma reunião e desapareceu durante a ditadura militar.

Andreia Prestes, José de Abreu e Celso Vasconcellos

Paulinho Moska e Lenine estiveram no palco do Papo Flim, conversando com Maurício Pacheco. Eles falaram sobre como a música tem o poder de contar histórias e como a poesia e as regionalidades são protagonistas dos seus trabalhos. Os dois destacaram a importância de ir além da rima pela própria rima, entregando sentido às letras e à musicalidade. Não preciso nem falar dos shows de Sandra Sá e Lenine que foram incríveis no palco, não é?

A linda homenagem a Ziraldo contou com uma roda de conversa que trouxe outros grandes nomes do chargismo e desenho brasileiros: Aroeira e Miguel Paiva. Adriana Lins (sobrinha e presidente do Instituto Ziraldo), conversou com os cartunistas e Laura Costa sobre a influência do homenageado em suas obras e eles contaram várias histórias divertidas e emocionantes sobre seu relacionamento com o escritor. Miguel e Aroeira, por exemplo, levavam seus desenhos para a avaliação de Ziraldo, que amava trabalhar em grupo e, basicamente, inventou o design gráfico no Brasil.

“Da mesma forma como a gente não se esquece de Shakespeare, (…) não vamos nos esquecer de Ziraldo” (Aroeira).

Laura Costa, Adriana Lins, Miguel Paiva e Aroeira

Confesso que eu fiquei tão maravilhada durante a roda de conversa entre Igor Pires, Thalita Rebouças, Felipe Fagundes, Andressa Santos e Tuca Andrada que nem consegui anotar nada. Meus olhos brilhavam! O bate-papo super leve e descontraído revelou como os autores se relacionam com a escrita e com o público, além de ressaltar a relevância dos temas tratados por eles nos contextos familiares e da adolescência e juventude. Em breve, vou contar para vocês sobre a entrevista exclusiva que fiz com Igor Pires.

Igor Pires, Andressa Santos, Felipe Fagundes, Thalita Rebouças e Tuca Andrada

A Festa Literária Internacional de Maricá continua até dia 10 de novembro, na Orla do Parque Nanci, com a presença de Roberta Sá, Vanessa da Mata, MV Bill, Geraldo Azevedo e muitos outros grandes nomes.

Se eu pudesse resumir meu primeiro final de semana de Flim, seria exatamente isso: desejo renovado por ler mais e me dedicar mais à escrita. Claro que foi super cansativo, mas extremamente recompensador. Foi uma oportunidade ímpar de estar próxima a pessoas que amam ler e escrever e que foram resgatadas pelo poder que a palavra tem.

Épico e aquático – Pétalas de rosas

O ritmo de batalha dos Desafiantes de Yuvalin é sempre frenético. Principalmente, quando a vida de um dos integrantes está em risco. Ainda mais quando alguém que ela ama está morrendo pela segunda vez.


Ouvi sons como lanças caindo e atingindo alguém que caiu. Provavelmente, Stefan. Além disso, vi que o Kroll ficou preso nas plantas que eu tinha encantado para enredar nossos inimigos. Um deles atirou com um arco na direção dos meninos, mas acho que errou porque não ouvi nenhum som imediatamente. Mas o outro acertou o minotauro.

Ouvi o Toshinori gritar que eu não precisava me preocupar mais porque os Desafiantes estavam ali. Me debati e tentei me desamarrar, mas as cordas estavam muito bem amarradas, então, me arrastei pelo chão. Vi Hyoda e Kroll tentando se desvencilhar das gavinhas e, em pensamento, desfiz o encantamento, liberando as plantas e meus aliados.

O  tambor do Joseph soou e Toshinori pulou por cima do bárbaro e do minotauro, pousando diante dos nossos inimigos, bem de frente pra nós. Ao ver isso, Lazam me puxou pelo cabelo e pôs uma adaga no meu pescoço. Senti o corte doloroso e o sangue começar a escorrer. Eu suava frio e arfava. Meu pai estava morrendo e eu seria a próxima. O barão gritou para que todos se afastassem. Fechei meus olhos e fiz preces. Só ouvia os barulhos de armas e sentia o corte, os braços amarrados. E o calor de uma bola de fogo que atingiu os meninos.

Quando abri os olhos, Toshinori e Hyoda estavam no chão. No entanto, o bárbaro em fúria destruiu por completo um dos inimigos, em vez de me ajudar. Mas eu entendo, é claro. Era uma bola de fogo. O Kroll tem memórias ruins disso. Enquanto isso, outro mercenário atirou no crocodilo.

Toshinori gritou para que Kroll mordesse o biomante que estava brilhando. Mas ele mesmo não conseguiu bater no mago. Eu estava em desespero. Completo desespero. Uma adaga cortando meu pescoço, meus amigos se batendo e meu pai morrendo – DE NOVO.

Enquanto o minotauro se aproximava de mim, o barão puxou a adaga e enfiou no meu peito. Olhei o sangue brotando e, felizmente, não foi um corte profundo. Só não deu tempo de pensar em nada porque ouvi um tiro. No susto, fechei os olhos e ouvi os gritos de Lazam. Stefan poderia ter me matado, mas conseguiu acertar o barão. Momentos em que o Stefan sabe ser bem insuportável, mas é extremamente útil.

Muitos gritos pairavam no ar daquela caverna. Gritos de dor do barão, dos seus servos, dos meus amigos. De repente, o chão ao redor do caixão onde estava Sir Starkey brilhou mais forte, no entanto, sua voz cessou e a caixa parou de se sacudir.

Em fúria, Kroll desceu seu machado sobre o biomante, atravessando o campo de força ao redor do mago. O biomante caiu, jorrando sangue. Hyoda levantou suas katanas em chamas ao meu lado, jogou o Lazam na parede de trás e cortou o corpo do hynne em vários pedaços. O fogo era tão intenso que, até mesmo, as amarras que me prendiam se soltaram.

Eu gritei enlouquecida para que tirassem meu pai do caixão. Me desvencilhei das amarras e supliquei por um milagre a Allihanna e aqueles raios de luz emanaram do meu corpo ao encontro de todos os que estavam feridos na sala.

Nos preparamos para arrancar meu pai daquela caixa horrorosa que o prendia. Todos batemos juntos com nossas armas ou mãos. O campo de força se desfez, as correntes caíram e a luz no chão se apagou. Corri para tirar a tampa do caixão, abri e vi meu pai totalmente sem vida lá dentro. Ele parecia qualquer outro esqueleto dentro de uma tumba, sem nem uma rosa para presentear seu rosto.

Comecei a chorar como uma criança, gritando para que meu pai voltasse. Desespero total. Perdi alguém que não sabia que tinha logo após ter encontrado. Enquanto eu gritava, suplicante, uma rosa nasceu no lugar do olho direito de meu pai e um movimento, como de alguém que respira profundamente, alongou seu tórax por um instante.

Meu coração saltava nessa mistura de sentimentos e um sorriso dele dizendo que ainda precisava se acostumar a não respirar me fez voltar a chorar como uma criança, mas, dessa vez, de profunda alegria. Nos abraçamos, mesmo ele ainda dentro do caixão. Por longos segundos, fomos só nós dois, pai e filha, emocionados.

Meu pai saiu do caixão e caiu. Ele não conseguia ficar de pé. As pernas não funcionavam mais. Se arrastando, ele foi até o corpo estraçalhado do barão, fechou os olhos do ex-amigo e disse que não havia outro jeito, ele merecia o fim pelo que fez. Sir Starkey suspirou mais uma vez, nos agradeceu e perguntou quem iria carregá-lo a partir daquele momento.

Stefan se adiantou, mas não em resposta proativa. Ele convidou o Caique para se juntar a nós – claro que com o objetivo de carregar meu pai. Mas ele respondeu que tinha uma dívida com o vilarejo. Eu não tinha dimensão do que tinha acontecido naquela noite do lado de fora, mas imaginava que, para os meninos estarem ali, o vilarejo poderia estar devastado.

O jovem Caique

Os meninos, principalmente o paladino, queriam o dinheiro do barão. UM ABSURDO. O dinheiro era do vilarejo e eu apoiava por completo que Caique se colocasse a favor do seu povo. Eu argumentei contra Stefan e, até mesmo, Toshinori que o vilarejo precisava ser bem cuidado após o ocorrido, o povo não devia pagar pelo que Lazam fez.

Meu pai analisava o jovem loiro junto de nós. Perguntou sobre a história de Caique e disse que via honra no jovem. Ele não se lembrava de onde era exatamente, mas que o próprio barão havia cuidado dele desde bem pequeno. Sir Starkey puxou sua espada para sagrá-lo cavaleiro, afinal, como Edward salientou, para reger um vilarejo, era necessário ter um título como esse.

Eu ajudei meu pai a se levantar e o segurei para que ele pudesse fazer o ritual de sagrar Caique um cavaleiro. Stefan me ajudou, fazendo uma cadeira para que meu pai sentasse. Após a bênção a Caique, o jovem se levantou e puxou sua espada em um ato pomposo de um novo cavaleiro. Imediatamente aquela espada ficou em chamas e nós olhamos espantados para aquilo. Ele nos contou depois que só sabia que todas as espadas que tocava tinham o mesmo efeito em suas mãos.

Caique nomeou Hyoda como seu auxiliar, já que, prontamente, o minotauro se disponibilizou a ajudar o vilarejo. Também aproveitei aquele momento, depois da entrega daquela cadeira, para agradecer o Stefan. Fiquei um pouco confusa com o fato de ele estar sendo bem útil ultimamente. Além disso, comentei sobre a gente conversar depois sobre algo permanente para permitir que meu pai se locomovesse.

Assim que saímos da caverna e passamos pela porta da capela, meu pai, simplesmente, caiu com a cadeira esfacelada. Hyoda começou a carregá-lo e encontramos Joseph conversando com uma criança. Estava amanhecendo e pude ver ao redor com clareza como tinha sido aquela noite. Haviam corpos e muita bagunça ao redor do castelete. Abracei meu pai e me certifiquei de que o minotauro estava dando apoio a ele. Então, comecei a conversar com as pessoas para consolá-las e a curar os feridos com pequenos milagres de Allihanna.

Também fiz nascer algumas plantas que serviram para ajudar meus aliados a tratar do enterro dos corpos, ao menos como uma homenagem a eles. Passamos todo aquele dia ajudando no que podíamos ali no vilarejo. Toshinori liderou um emocionado discurso fúnebre, mesmo que a maior parte dos mortos não fosse muito chegada aos habitantes do local.

Caique também fez um discurso emocionado e que, finalmente, despertou algum interesse dos moradores de Ermo Esquecido, uma vez que, ao que parece, a nobreza morta naquela noite se importava bem pouco com as pessoas do vilarejo. O jovem trocou o nome do vilarejo para Ermo Lembrado e anunciou que promoveria mudanças significativas ali a partir daquele momento.

É difícil explicar tudo o que eu estava sentindo. Meu pai e eu estávamos juntos agora, eu estava cumprindo minha missão como aventureira e sob a bênção da deusa. Não foi uma noite de festa, foi uma noite de alívio e de recomeços. Muitos estavam traumatizados, outros tinham esperanças de que somente agora a vida iria melhorar. Eu acreditava que a jornada estava apenas começando.

Divaguei sozinha antes de dormir por alguns minutos. Então, meu pai se juntou a mim, trazido por Edward. Dormi nos jardins, sob as estrelas. Meu pai acariciava meus cabelos e eu, que tinha chorado como criança pela possível perda dele, era consolada por ele mesmo como uma criança no colo de seu pai.


Assista ao vídeo sobre essa parte da história no canal do Qual é a do RPG?: https://www.youtube.com/watch?v=H1fvTZJNYTM

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Até breve!

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Ainda estou aqui – Voltando à história daqueles que nunca voltaram

O cinema brasileiro nunca foi muito prestigiado em minha casa e cresci sem grande interação com os filmes nacionais. No entanto, Ainda estou aqui (do diretor Walter Salles) mudou completamente minha concepção da cinedramaturgia brasileira. Não é à toa o que tem-se dito sobre esse filme e eu faço questão de compartilhar minhas impressões do que vi, apesar de ser difícil explicar em palavras todo o sentimento que o longa passa.

Se você se incomoda de não receber resposta de um filho, amigo ou cônjuge cinco minutos após o envio da sua mensagem no WhatsApp, você não consegue imaginar o drama de uma família que não recebeu notícias sobre alguém que um dia saiu de casa e nunca mais voltou.

O chão se abriu sob os pés de Eunice Paiva (Fernanda Torres) quando seu marido e ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello) foi convidado a dar um depoimento para os militares em 1971 e nunca mais retornou. Com o endurecimento da Ditadura Militar no Brasil, esse era o destino de quem poderia ter um mínimo de suspeita sobre associação dita criminosa, situação retratada no filme com detalhes e brilhantismo.

O drama causa um sentimento de impotência, de expectativa. Quem conhece um pouco de história sabe o final, mas você se envolve com os personagens (com as pessoas) de tal modo que é impossível não se sensibilizar com a dor de alguém que viu seu mundo desabar e precisa, sozinha, se reinventar para cuidar da família enquanto espionam, prendem e fazem perguntas.

Fernanda Torres no papel da protagonista se entrega totalmente e o resultado é o mais puro cinema, quando, sem fazer monólogos, você enxerga a alma da personagem. Vemos em cena uma mulher forte, que não desistiu de lutar por sua família quando seu grande amor desapareceu. Lutou também para que houvesse uma resposta, que conseguiu apenas mais de 20 anos depois.

Ambientado na década de 1970, o filme tem uma fotografia impecável, com um jogo de câmeras que conta a história junto com a História. Cenários e figurino retratam com fidelidade cada momento da trama e a trilha sonora liberta memórias, cheias de super hits da década e do próprio momento de perseguição política, com música original de Warren Ellis.

A produção, baseada no livro biográfico de Marcelo Rubens Paiva (um dos cinco filhos do casal), ressalta, ainda, a relevância de se falar sobre o assunto. Há inúmeras pessoas que passaram pelo mesmo drama e prosseguem sem informações consistentes, há algozes que nunca foram devidamente punidos. O mais importante que destaco é: não podemos repetir isso, jamais!

Chorei, sim, mas, principalmente, mergulhei na história. Esse filme faz isso com você: te prende do começo ao fim, como se alguém desabafasse para você em uma tarde. Esse é um absolute cinema brasileiro que vale uma sexta-feira no final da tarde, quando você se desliga do mundo para desfrutar de momentos que importam com quem você ama e está pronto para se emocionar com fatos e refletir sobre a vida.

Crítica publicada por mim no site do nosso parceiro Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2024/10/21/critica-ainda-estou-aqui/

Tempo Suspenso – Reflexões sobre a época da pandemia no Festival do Rio 2024

Quando olhamos para o tempo suspenso que vivemos durante a pandemia, parece até brincadeira. O filme do aclamado cineasta francês Olivier Assayas traz essa ideia de retratar, com simplicidade, os momentos delicados que passamos. Tempo Suspenso (Hors du Temps) participou de dois festivais de cinema e mistura comédia e poesia na telona.

Paul e sua amada no jardim

A aproximação da história narrada no filme à história vivida por bilhões de pessoas torna o enredo do filme muito próximo ao espectador. A gente se enxerga em diversas cenas e ri delas porque “Poxa! Eu também ficava nervosa quando as pessoas se aproximavam sem máscara de mim”. Nossas neuroses estão retratadas no longa e isso, hoje, é até engraçado.

O filme autobiográfico conta a história de um cineasta, Paul (​​Vincent Macaigne), e seu irmão Etienne (Micha Lescot), um jornalista musical, que se confinaram durante o isolamento de 2020 na casa de campo da família no interior da França. Eles e suas parceiras Morgane e Carole (Nine D’Urso e Nora Hamzawi) vivem as angústias de um momento inédito da História e situações divertidas e animadas repletas de memórias da infância.

A narrativa tem um bom andamento, a atuação traz veracidade e, de fato, facilmente nos enxergamos no desespero de pessoas que não aguentavam mais estar confinadas ou que reclamavam que em um determinado mercado os funcionários não usavam máscara. Pode parecer um enredo meio pobre, mas, ao contar sobre esse momento, com cenas entremeadas de poesia, devaneios e cenários exuberantes do interior da França, o espectador é um pouco transportado para dentro da tela.

Algo que me chamou à atenção no filme, além das sequências brilhantes, foi a temática do futuro. Todos vivemos um tempo suspenso e nos perguntamos “como vamos fazer compras agora?”, “o que será do meu trabalho?”, “como serão as relações?”… Bom, eu sou jornalista e escrevo no Qual é a das quintas? desde 2013, e uma questão que, não apenas passou pela minha cabeça, mas eu escrevi no blog, foi pensando sobre o futuro do cinema (que você pode ler aqui). Era impossível eu, Aline, não me identificar tanto com Paul como com Etienne.

Após algum tempo de confinamento, algumas coisas se tornaram menos inconvenientes e mais normais, mas o temor ainda resistia. Sim, estou falando do filme, mas também da vida real. O final do longa me trouxe apenas a reflexão sobre tudo o que passou: momentos difíceis, com medo, mas também divertidos e junto com pessoas que amo. Talvez, essa seja mesmo a proposta do cineasta, de nos fazer relembrar e pensar que, felizmente, já passou, no entanto, o que carregamos de tudo isso?

De segunda a sexta, esse é um filme sexta-feira à tarde, numa tarde chuvosa em que você fica de moletom na sala tomando um chocolate quente assistindo na TV.

Crítica publicada por mim no site do nosso parceiro Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2024/10/17/critica-tempo-suspenso/