A (nova) revolução dos bichos

A fábula de George Orwell ganhou mais uma adaptação para longa-metragem e, dessa vez, dirigida por Andy Serkis em uma animação dramática e sarcástica. A maior parte das perguntas que vi sobre o filme é se ele é fiel ao livro: não, não é, já adianto.

A Revolução dos Bichos de 2026 é uma adaptação da história original, possuindo muitos elementos bem diferentes. A história se ambienta nos dias atuais ou, talvez, muito mais no futuro, tem drones, Ferraris, shoppings.

Lucky (Gaten Matarazzo) é o personagem central da trama, um filhote inteligente vivendo na fazenda que está prestes a ser vendida por dívidas. Quando a porca Bola de Neve (Laverne Cox) descobre que os animais estão a caminho de um matadouro, os animais se unem para eliminar o inimigo em comum e até o dono da fazenda, o sr. Jones, junto com o pessoal do banco e do matadouro são expulsos. Assim, os animais instituem a Fazenda dos Animais.

Em essência, lá no fundo, a história até que se mantém: as regras básicas começam a ser distorcidas e os porcos fazem o “trabalho dos porcos”, não podendo se misturar com os outros animais, que fazem todo o trabalho pesado da fazenda. Lucky também sabe ler, mas não sabe em quem acreditar e sempre acha que está fazendo tudo pelo bem dos animais, quando, na verdade, é massa de manobra de Napoleão (Seth Rogen), como todos os outros.

A animação apresenta Freida Pilkington (Glenn Close), vizinha do Sr. Jones, dona de um império de fazendas, bilionária, e que deseja a qualquer custo a Fazenda dos Animais. Outros personagens com um super destaque e cenas divertidas e choráveis são Boxer/Sansão (Woody Harrelson), o cavalo trabalhador incansável que é melhor amigo de Lucky; o burro idoso e cínico Benjamin (Kathleen Turner), com falas sarcásticas e consciência plena; Carl/Carlos (Jim Parsons), uma ovelha que, depois que foi tosada acidentalmente, passa a perceber que algo está errado, achando que está ficando maluco; e a porquinha Brisa (Iman Vellani), por quem Lucky era apaixonado, vendo ao longo do tempo que o jovem porco se corrompeu.

Jim Parsons também interpreta as outras ovelhas do rebanho, que apenas repetem cegamente o que os porcos dizem. O diretor Andy Serkis também interpreta o galo Randolph. Vale lembrar que estes são os dubladores da versão original em inglês e, para ouvi-los você deve assistir legendado (o que deve ser bem pouco provável de encontrar nos cinemas brasileiros).

A trilha sonora é incrível e envolvente, dando ainda mais vida aos cenários e cores de acordo com os momentos do filme, o que contribui para o tom das cenas (uma mais alegre, outra mais sombria, outra mais reflexiva). A animação é bem feita, possui muitos detalhes, o 3D é excelente.

A reflexão de que fazer o que é melhor para todos e não apenas alguns ser difícil, porém necessário, é misturada àquele sentimento doloroso de impotência diante das injustiças. Como as animações são tidas para crianças (o que nem sempre é real), as mais novinhas podem apenas ver como algo divertido e bonitinho, mas as mais velhas já podem começar a entender levemente essas reflexões. Adultos, geralmente, conseguem ver bem mais que isso (se você for um adulto consciente, claro).

Em dias da semana, A Revolução dos Bichos (2026) seria uma terça-feira à tarde, num dia de férias das crianças. O filme possui muitas qualidades, é bem amarrado, não é só divertidinho e te deixa reflexivo, porém deixa a desejar na essência da história original. Talvez, ele deixe meio superficial diante de tudo o que poderia oferecer ao público. Você pode assistir ao filme, mas nunca deixar de ler o livro.

Texto publicado originalmente no portal Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2026/05/25/critica-a-revolucao-dos-bichos-2026/

O Mandaloriano e Grogu como deve ser

O caçador de recompensas mais temido e o aprendiz mais fofo da galáxia saíram das telinhas da Disney+ para as telonas em um novo filme Star Wars, com a promessa de reviver o universo no cinema. A expectativa para dar certo é grande, mas será que vai chegar lá?

Antes de mais nada, O Mandaloriano e Grogu (Star Wars: The Mandalorian and Grogu) está, sim, anos luz à frente da trilogia ex-canônica. Isso, imagino eu, seja um critério para reacreditar no retorno do universo ao cinema. Pode ser comparado às trilogias canônicas? Aí é outra história.

O longa de mais de 2 horas é um grande episódio da série. Se passa imediatamente após o final da terceira temporada e age como uma quarta, mas em menor escala. Fiquei imaginando onde os episódios seriam cortados, mas a fluidez do filme é boa e, realmente, é melhor ser um filme do que mais uma temporada.

A linha de enredo do filme não tem nada de extraordinária, já foi a mesma de milhares de filmes, e da própria série, muito na pegada da jornada do herói. Não há nada de errado nisso, só não surpreende nesse sentido. A produção em si e o jeito Mando de resolver as coisas são o que dá tom ao filme.

Din Djarin/mandaloriano (Pedro Pascal) demonstra toda a sua habilidade como caçador em missão logo no começo do filme. Os primeiros minutos já são lá em cima, com ataques surpresa, tiros, explosões, sabotagem e, com a ajuda de Grogu, grandes escapadas. Mando é contratado pela Nova República para prender ex-líderes do Império, que não desistiram do antigo modo de fazer as coisas, como a gente já viu na série.

Grogu tem uma projeção muito maior nesse filme. Ele não apenas ajuda o seu tutor/responsável, mas toma atitude, resolve questões difíceis sozinho, está mais forte no uso da Força, tem um tempo razoável de tela, tudo isso sem perder a fofura. Muitas das cenas com ele são as mais divertidas.

Uma coisa que sempre me deixa chateada com SW é que, com tantos lugares diferentes e raças diversas, que são muito bem explorados nas animações e em algumas séries, as histórias dos filmes sempre voltam a apresentar os mesmos planetas e luas e explora muito pouco da diversidade racial do universo no eixo central da trama. Pelo menos, não há menções a qualquer Skywalker, o que me deixou realmente aliviada.

A fotografia é incrível, os cenários estão muito bem feitos e até o CGI está bom. A trilha sonora embala com a música oficial da série em pequenas variações dependendo dos cenários onde os personagens se encontram.

Além disso, o tempo inteiro há perseguições de naves, veículos com pernas, carros voadores, muitas explosões e tiros, lutas com blasters e armas variadas e (aí sim) raças diferentes. Claro que foi muito bom ver o Zeb/Garazeb Orrelios (Steven Blum) em ação, como nos velhos tempos, e também um certo cowboy que fez algumas aparições bem rápidas.

Há momentos para rir e para se emocionar um pouco. Uma sensação de que tudo pode dar errado o tempo todo, assim como em boa parte da série. Também ficou uma impressão de que algumas partes poderiam ser menores ou, até mesmo, cortadas e outras, que poderiam ser melhor desenvolvidas.

E não custa lembrar que esse é um filme de mandaloriano, não é Skywalker. Não espere coisas de Skywalker no meio desse filme, você não vai encontrar.

Em resumo, não é um filme ruim, ele é bom, vale a pena ser assistido. Se tiver grana para o IMAX, veja em IMAX porque, apesar das falhas no desenvolvimento da história, ainda é uma grande produção visual com efeitos incríveis.

Em dias da semana, considero esse filme um sábado de maratona de série. Sabe aquele dia chuvoso que você não tem nada para fazer e fica em casa assistindo a todos os episódios de uma vez? O Mandaloriano e Grogu é exatamente para esse dia. Como deve ser.

Texto publicado originalmente no portal Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2026/05/19/critica-o-mandaloriano-e-grogu/

O Diabo ainda veste Prada

…e Louis Vuitton, e Gucci, e Chanel…

O tapete vermelho e as câmeras estão prontos, e também os iPhones, influenciadores e um mundo bem diferente de 20 anos atrás para Miranda Priestly (Meryl Streep) e Andrea/Andy Sachs (Anne Hathaway). A sequência de O Diabo Veste Prada envolve os personagens em um drama acerca da sobrevivência nesse novo mundo, com uma pitada de moda e luxo.

Sequências, de um modo geral, costumam ficar aquém do brilho do primeiro filme. Preciso te dizer que esta é, sem dúvidas, uma boa sequência, faz o que se propõe a fazer. Para muitos, acredito, o hype será apenas pela nostalgia, mas não pelo filme em si.

Como sempre, o super elenco entrega tudo muito bem. Esses longos 20 anos, porém, mexeram um pouco com a forma de lidar com a vida de alguns personagens. Andrea continua acreditando no jornalismo e pensando no que é melhor para sua carreira, mesmo que, de modo inocente, isso signifique fazer algumas ações excusas. Emily (Emily Blunt) continua ambiciosa, talvez até bem mais ambiciosa do que era, sem escrúpulos. Nigel (Stanley Tucci) continua brilhante e um visionário com suas tiradas ácidas e toda a doçura que demonstra por Andrea.

Quem parece ter passado por uma grande mudança foi Miranda. Ela continua falando o que pensa, o que não gosta e chocando pessoas. Agora, porém, ela aparece muito mais vulnerável, aberta e vítima. Como uma grande tendência atual no cinema, ao contrário do filme de 2006, a sequência não tem uma pessoa rotulada como vilã. Logo, a antiga vilã se torna, praticamente, a mocinha – dadas as devidas proporções -, afinal ela ainda não tem o menor interesse de agradar as pessoas e sabe muito bem quem ela é.

O Diabo Veste Prada 2 tem uma linha muito mais próxima do complexo e dramático mundo corporativo do que do ambiente da moda. Certamente, se o meu TCC sobre a representação do jornalista no cinema estivesse sendo escrito agora, haveria um capítulo acerca desse filme nele. Vemos no longa o mundo do jornalismo em declínio, porque as pessoas não compram revistas e jornais impressos e os leitores digitais não concedem sua atenção a qualquer coisa.

Essa é a maior crítica do filme: o quanto o mundo em que vivemos hoje, digitalizado, IAtizado e monjarizado, se infiltrou em diversos setores e indústrias a ponto de não haver espaço para a tradição, conhecimento profundo e, até mesmo, o mundo real. Além de, obviamente, questões sobre traição e o quanto as pessoas são capazes de fazer tudo pelo que almejam, inclusive puxar o tapete do coleguinha para crescer.

Há inúmeras referências incríveis a cenas icônicas do primeiro filme e a situações do nosso cotidiano atual. Apesar de todo o drama, o roteiro nos premia com muitas cenas divertidas e, é claro, de vergonha alheia como Miranda as que provoca e que Andy sabe viver muito bem. A trilha sonora segue a ideia de sequência, como se fosse um único filme, trazendo as melhores músicas da soundtrack original. Os looks são maravilhosos, é claro, e a sequência na Itália é de tirar o fôlego.

Sobre as cenas em Milão, aliás, temos uma participação especial que zera tudo no bastidor e no palco. Afinal, se tem alguém que entende de moda é ela, estou certa, little monsters?

Esse é um filme que vale a pena ser visto, palavra de quem se identificou muito com o que a Andy viveu no começo dele. Talvez, quem criou uma expectativa para que o filme seja muito sobre o glamour, o luxo, modelos e estilistas, pode se frustrar um pouco. No entanto, temos esses atores atuando de forma brilhante (e elegante também) numa sequência divertida e intrigante.

De segunda a sexta, esse filme é uma quinta-feira à noite. O final de semana está quase chegando, mas você está exausto e ainda tem o drama de acordar cedo no dia seguinte. Que tal comer sua comida favorita e curtir o filme? Amanhã é outro dia!

OBS. 1: Se você digitar “the devil wears prada 2” no Google, os sapatos vermelhos ícones do filme desfilam na tela. Não sei quanto tempo vai ficar assim.

OBS. 2: Como uma jornalista que há muito não tem a oportunidade de escrever de verdade, fazer a crítica deste filme tem um peso muito maior. Eu agradeço por poder compartilhar com você.

Texto publicado originalmente no portal Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2026/04/28/critica-o-diabo-veste-prada-2/

Brasil no Oscar: veja como foi a coletiva de imprensa de Ainda Estou Aqui

“Com certeza, [O OSCAR] foi muito melhor que o de 99” (SALLES, Walter)

Ainda sob os efeitos etéreos do resultado do Oscar 2025, Walter Salles, Fernanda Torres e Selton Mello participaram de uma coletiva de imprensa no dia seguinte, na segunda-feira (3 de março), e a gente estava lá para conferir tudo.

Coletiva de imprensa Ainda Estou Aqui – 3 de março de 2025

Eles estão muito felizes – ÓBVIO -, mas também estão muito cansados. Não foram poucas as vezes que o Selton e a Fernanda pediram um café e disseram que, depois dessa ultramaratona de divulgação do filme, eles precisam voltar para casa e dormir. Fernanda até brincou falando que, agora, quer fazer gastronomia e gravar um programa, num lugar paradisíaco, em que eles vão avaliar os pratos e não precisarão fazer mais nada.

Walter comentou que perdeu o papel com seu discurso e precisou improvisar na hora que recebeu a estatueta. No entanto, ele fez um resumo para nós e frisou que, no final, ele falaria em português BR algo como “Viva a democracia!” e “Ditadura nunca mais!”.

Reforçaram, também, a importância de filmes como esse e outros ganhadores, como No Other Land, brindando o mundo com assuntos importantes que não podem ser esquecidos. Além de realçar a importância do cinema independente que ganhou um grande destaque nesta edição do prêmio.

Infelizmente, não houve tempo para responder a pergunta que eu enviei, mas, indiretamente, Selton Mello respondeu quando contou sobre os efeitos que essa avalanche Ainda Estou Aqui trouxe para o cenário do cinema brasileiro: comentou sobre jovens sonhadores que, agora, decidiram estudar cinema porque viram que é possível seguir os seus sonhos.

É evidente o recado que tudo isso deixa para o mundo: a história da família Paiva não será esquecida, está viva, como algo que não pode mais se repetir. Em um momento tão crítico como o que vemos se desenrolando no cenário mundial, a mensagem é clara.

Para mim, particularmente, quando assisti ao filme e escrevi minha crítica aqui, sonhava com prêmios, mas não imaginava a repercussão que o longa teve no mundo todo. Minha alegria com tudo isso é imensa! Meu TCC da faculdade de jornalismo falou sobre um filme vencedor de Oscar que foi uma adaptação de livro (Spotlight) e também trazia para a luz um cenário que deveria ser combatido.

Não deixemos de falar sobre Ainda Estou Aqui, sobre histórias que precisam estar vivas para não se repetirem, sobre sonhos que também precisam estar vivos e se realizando pelos jovens e pelos velhos! Obrigada, Walter, Fernanda, Selton e todos que fizeram isso acontecer!

Texto publicado originalmente no portal Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2025/03/04/brasil-no-oscar-veja-como-foi-a-coletiva-de-imprensa-de-ainda-estou-aqui/

Ainda estou aqui – Voltando à história daqueles que nunca voltaram

O cinema brasileiro nunca foi muito prestigiado em minha casa e cresci sem grande interação com os filmes nacionais. No entanto, Ainda estou aqui (do diretor Walter Salles) mudou completamente minha concepção da cinedramaturgia brasileira. Não é à toa o que tem-se dito sobre esse filme e eu faço questão de compartilhar minhas impressões do que vi, apesar de ser difícil explicar em palavras todo o sentimento que o longa passa.

Se você se incomoda de não receber resposta de um filho, amigo ou cônjuge cinco minutos após o envio da sua mensagem no WhatsApp, você não consegue imaginar o drama de uma família que não recebeu notícias sobre alguém que um dia saiu de casa e nunca mais voltou.

O chão se abriu sob os pés de Eunice Paiva (Fernanda Torres) quando seu marido e ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello) foi convidado a dar um depoimento para os militares em 1971 e nunca mais retornou. Com o endurecimento da Ditadura Militar no Brasil, esse era o destino de quem poderia ter um mínimo de suspeita sobre associação dita criminosa, situação retratada no filme com detalhes e brilhantismo.

O drama causa um sentimento de impotência, de expectativa. Quem conhece um pouco de história sabe o final, mas você se envolve com os personagens (com as pessoas) de tal modo que é impossível não se sensibilizar com a dor de alguém que viu seu mundo desabar e precisa, sozinha, se reinventar para cuidar da família enquanto espionam, prendem e fazem perguntas.

Fernanda Torres no papel da protagonista se entrega totalmente e o resultado é o mais puro cinema, quando, sem fazer monólogos, você enxerga a alma da personagem. Vemos em cena uma mulher forte, que não desistiu de lutar por sua família quando seu grande amor desapareceu. Lutou também para que houvesse uma resposta, que conseguiu apenas mais de 20 anos depois.

Ambientado na década de 1970, o filme tem uma fotografia impecável, com um jogo de câmeras que conta a história junto com a História. Cenários e figurino retratam com fidelidade cada momento da trama e a trilha sonora liberta memórias, cheias de super hits da década e do próprio momento de perseguição política, com música original de Warren Ellis.

A produção, baseada no livro biográfico de Marcelo Rubens Paiva (um dos cinco filhos do casal), ressalta, ainda, a relevância de se falar sobre o assunto. Há inúmeras pessoas que passaram pelo mesmo drama e prosseguem sem informações consistentes, há algozes que nunca foram devidamente punidos. O mais importante que destaco é: não podemos repetir isso, jamais!

Chorei, sim, mas, principalmente, mergulhei na história. Esse filme faz isso com você: te prende do começo ao fim, como se alguém desabafasse para você em uma tarde. Esse é um absolute cinema brasileiro que vale uma sexta-feira no final da tarde, quando você se desliga do mundo para desfrutar de momentos que importam com quem você ama e está pronto para se emocionar com fatos e refletir sobre a vida.

Crítica publicada por mim no site do nosso parceiro Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2024/10/21/critica-ainda-estou-aqui/

Tempo Suspenso – Reflexões sobre a época da pandemia no Festival do Rio 2024

Quando olhamos para o tempo suspenso que vivemos durante a pandemia, parece até brincadeira. O filme do aclamado cineasta francês Olivier Assayas traz essa ideia de retratar, com simplicidade, os momentos delicados que passamos. Tempo Suspenso (Hors du Temps) participou de dois festivais de cinema e mistura comédia e poesia na telona.

Paul e sua amada no jardim

A aproximação da história narrada no filme à história vivida por bilhões de pessoas torna o enredo do filme muito próximo ao espectador. A gente se enxerga em diversas cenas e ri delas porque “Poxa! Eu também ficava nervosa quando as pessoas se aproximavam sem máscara de mim”. Nossas neuroses estão retratadas no longa e isso, hoje, é até engraçado.

O filme autobiográfico conta a história de um cineasta, Paul (​​Vincent Macaigne), e seu irmão Etienne (Micha Lescot), um jornalista musical, que se confinaram durante o isolamento de 2020 na casa de campo da família no interior da França. Eles e suas parceiras Morgane e Carole (Nine D’Urso e Nora Hamzawi) vivem as angústias de um momento inédito da História e situações divertidas e animadas repletas de memórias da infância.

A narrativa tem um bom andamento, a atuação traz veracidade e, de fato, facilmente nos enxergamos no desespero de pessoas que não aguentavam mais estar confinadas ou que reclamavam que em um determinado mercado os funcionários não usavam máscara. Pode parecer um enredo meio pobre, mas, ao contar sobre esse momento, com cenas entremeadas de poesia, devaneios e cenários exuberantes do interior da França, o espectador é um pouco transportado para dentro da tela.

Algo que me chamou à atenção no filme, além das sequências brilhantes, foi a temática do futuro. Todos vivemos um tempo suspenso e nos perguntamos “como vamos fazer compras agora?”, “o que será do meu trabalho?”, “como serão as relações?”… Bom, eu sou jornalista e escrevo no Qual é a das quintas? desde 2013, e uma questão que, não apenas passou pela minha cabeça, mas eu escrevi no blog, foi pensando sobre o futuro do cinema (que você pode ler aqui). Era impossível eu, Aline, não me identificar tanto com Paul como com Etienne.

Após algum tempo de confinamento, algumas coisas se tornaram menos inconvenientes e mais normais, mas o temor ainda resistia. Sim, estou falando do filme, mas também da vida real. O final do longa me trouxe apenas a reflexão sobre tudo o que passou: momentos difíceis, com medo, mas também divertidos e junto com pessoas que amo. Talvez, essa seja mesmo a proposta do cineasta, de nos fazer relembrar e pensar que, felizmente, já passou, no entanto, o que carregamos de tudo isso?

De segunda a sexta, esse é um filme sexta-feira à tarde, numa tarde chuvosa em que você fica de moletom na sala tomando um chocolate quente assistindo na TV.

Crítica publicada por mim no site do nosso parceiro Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2024/10/17/critica-tempo-suspenso/

A Grande Fuga: absolute cinema de Oliver Parker

Meu estoque de lencinhos de papel acabou! Se você não dava nada pelo filme A Grande Fuga (The Great Escaper), drama dirigido por Oliver Parker, vou me esforçar nas próximas linhas para tentar mudar sua opinião.

Drama não é meu gênero favorito de filmes, mas esse tem todos os atributos para ser um filmaço. Começo falando sobre o enredo que é baseado no caso real de Bernard Jordan (Michael Caine), um veterano da Segunda Guerra Mundial, que foge da casa de repouso onde mora com sua esposa Irene Jordan (Glenda Jackson) para participar da comemoração do 70º aniversário do desembarque do Dia D na Normandia.

Bernard Jordan

A história também é construída em cima de muitos flashbacks, trazendo algumas cenas do Dia D e o romance juvenil do casal, para situar o espectador e levar ao ápice dramático da narrativa.

Além disso, algo que eu, particularmente, gosto muito, e o filme abusa desse recurso com maestria, são as cenas tão bem escritas e dirigidas que não precisam nem de falas. A própria atuação e o jogo de ângulos e cores já traduz o sentimento e tudo o mais para quem assiste.

Os atores que, em sua maioria, já são (literalmente) veteranos entregam tudo em seus papéis. Você vê o personagem do filme em questão e não a sombra de outros no lugar dele. O que, até onde se sabe, é o último filme da carreira de Michael Caine se tornou uma despedida com chave de ouro. Excelente aposentadoria, Caine!

Glenda Jackson, John Standing, Danielle Vitalis, Victor Oshin e Wolf Kahler também se destacam pela atuação dramática – e até divertida em algumas cenas – trazendo veracidade àquilo que a história se propõe a narrar.

A mensagem do filme traduz sentimentos de quem viveu muito, perdeu muito e aproveitou cada momento de sua vida no pós-guerra, e que não esqueceu os horrores vividos. Horrores esses que atormentam e trazem lembranças difíceis à tona diversas vezes, além de serem responsáveis por comportamentos extremos nos personagens, como alcoolemia, violência, doenças e mágoas.

De segunda a sexta, esse é um filme sexta-feira à noite, para assistir comendo pipoca e brigadeiro no sofá, enrolado na coberta, com a caixinha de lenços do lado e abraçando uma pelúcia (ou seu pet, ou alguém que você ame abraçar).

Michael Caine e Glenda Jackson

É uma pena que muitas pessoas não se interessem por esse tipo de filme que marca tanto a experiência de vida e propõe reflexões profundas. Eu sugiro que você assista e tire suas próprias conclusões. Se você realmente gosta de cinema, não deveria esquecer obras de arte como A Grande Fuga.

Crítica publicada por mim no site nosso parceiro Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2024/06/21/a-grande-fuga-absolute-cinema-de-oliver-parker/

Assassino por acaso e diversão garantida

Acredite se quiser, Assassino por Acaso (dirigido por Richard Linklater) é um filme baseado em um caso real. Essa crítica começa justamente apontando o espanto que eu tive quando apareceu na telona que Gary Johnson e o mundo ao redor dele realmente existiram. Mas, apesar de eu começar pelo meio do texto, os próximos parágrafos devem seguir uma linha para fazer sentido na sua cabeça – ou não.

Com lançamento em 12 de junho no Brasil, o filme conta a história de um professor universitário de filosofia, Gary Johnson (Glen Powell), que leva uma vida invisível e sem graça. Mesmo provocando seus alunos a pensarem e viverem intensamente, ele usa roupas simples, vive com seus dois gatos (ID e EGO) e dirige um carro popular. Como um passatempo bem diferente, ele presta serviços de inteligência para a polícia. Mesmo assim, sem nenhum tipo de aventura.

Poster

Tudo muda, no entanto, quando Jasper (Austin Amelio), que representa um assassino de aluguel para capturar as mentes por trás dos assassinatos e resolver os casos da polícia, é afastado de seu cargo. A única pessoa que sobrou para cobrir a ausência do colega foi Gary, que começa a ir muito bem nos disfarces. Bem até demais.

Essa é uma comédia de ação que entrega além do que foi prometido, graças a um roteiro bem feito, cheio de falas boas num timing perfeito, e à atuação impecável de Glen Powell, Adria Arjona, que interpreta Maddy Masters – a responsável por fazer Gary quebrar o protocolo como assassino de aluguel, e todo o elenco.

Além disso, a proposta do filme contextualiza muito bem as questões filosóficas levantadas pelo Gary em sala de aula e os momentos em que ele interpreta uma vida completamente diferente para a polícia na solução dos casos. Os espectadores podem acompanhar a evolução do personagem nesse encadeamento e imergir totalmente na história.

Essa evolução acontece não apenas na forma como o personagem age, mas é demonstrada também por meio do seu figurino muito bem planejado pela produção do filme. Ao longo da trama, você pode notar a transformação em cada caso e na própria vida do personagem.

Assassino por Acaso (Hit Man em inglês) é um filme que envolve quem assiste na expectativa de ver o personagem principal se desvencilhar das próprias mentiras enquanto lida com as mentiras dos outros, o que traz à tona uma pegada de agente secreto muito bem-humorada.

Ron (Gary) e Maddy

Possivelmente, esse não será um blockbuster, mas tem tudo para fazer um certo sucesso. De segunda a sexta, esse é um filme sexta-feira à noite. São quase duas horas muito bem aproveitadas de vida em que você se envolve tanto com a história que nem nota que esse tempo passou.

Crítica publicada por mim no site nosso parceiro Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2024/06/07/assassino-por-acaso-e-diversao-garantida/

Divertida Mente 2: uma grande e emocionante ideia

As emoções têm novas emoções em Divertida Mente 2 (Inside Out 2). Já os espectadores podem agendar sua próxima sessão de terapia para contar o que aprenderam com o novo filme da Pixar. Já separou o lencinho para levar para o cinema?

A Pixar parece ter acertado a mão dessa vez com as continuações de sucessos. Havia um temor real e natural de que as continuações já estavam se tornando um desperdício de energia, criatividade e dinheiro. Mas Divertida Mente 2 surpreende com uma história boa e coerente com o que milhões de pessoas já se identificaram, pelo menos, uma vez na vida.

Com estreia em 20 de junho no Brasil, o filme é da Pixar e Walt Disney Pictures, dirigido por Kelsey Mann e com roteiro de Dave Holstein e Meg LeFauve.

De forma bem-humorada, o filme é um espetáculo de realidade que ensina, mais uma vez, que cada sentimento precisa ter seu espaço e tempo. Com a Riley entrando na puberdade, todos os sentimentos ficam à flor da pele e nem eles sabem o que fazer dentro da cabeça dela. São muitas mudanças, inclusive, com a chegada de novas emoções: Ansiedade, Invej(inh)a, Vergonha e Tédio – deitado no sofá sem largar o celular um segundo sequer.

Novas emoções

No primeiro filme, temos emoções com descrições muito claras e objetivas, como a infância é. Agora, elas precisam lidar com a complexidade de um novo estágio da vida da protagonista. Além disso, os novos sentimentos chegaram para ficar e todos precisam aprender a coexistir pacificamente, ou as consequências podem ser desastrosas.

A dublagem brasileira dá um banho de contexto e memes atuais, afinal, temos uma adolescente em cena. É tão bem feito que você consegue nem se lembrar de quem são as vozes, com uma atuação que casa muito bem com cada personagem.

A animação, é claro, é um espetáculo à parte, com traços, coloração, 3D, tudo contribuindo para uma ambientação completa das cenas, trazendo sentimento para os momentos-chave do filme. A engenhosidade com que tudo é construído dentro da mente da Riley contribui para uma imersão completa nos cenários e na trajetória dos 5 personagens já conhecidos que são, simplesmente, expulsos de seus postos para dar lugar aos novos (por livre e espontâneo chute mesmo).

Com a Ansiedade no controle da mente da protagonista, tudo tem uma GRANDE chance de dar errado. O que me trouxe à clara reflexão da importância do equilíbrio entre as emoções em uma época quando todos estão extremamente ansiosos, deixando que essa personagem pequena e laranja tome conta. Os efeitos podem ser terríveis se não tratados e equilibrados com o retorno de todas as demais emoções em seus devidos lugares. Todas elas são importantes no lugar certo.

Por dentro da mente da Riley

O filme é recheado de piadas bem feitas e encaixadas também nos seus devidos lugares, algumas dão até uns sustos na gente. A evolução da história é emocionante, mas não me fez chorar como no primeiro filme. ALERTA DE SPOILER: sem mortes de personagens fofos e super apegáveis, nessa produção você se identifica mais com a história, reflete mais e tenha, talvez, um pouco de Nostalgia (outra emoção MARAVILHOSA), mas é menos chorável.

De segunda a sexta, esse é um filme sexta-feira à noite. Me surpreendi e convido você a se divertir – MUITO -, refletindo sobre os rumos que os seus próprios sentimentos têm levado você, mas sem te deixar na deprê… talvez, só um pouco ansioso haha’ brincadeirinha.Ah! Muito importante: tem cena pós-créditos, ok? Bem divertida, aliás. Fique até o final.

Crítica publicada por mim no site nosso parceiro Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2024/06/12/divertida-mente-2-uma-grande-e-emocionante-ideia/

O gato do sofá saiu de casa

Meu erro foi não ter levado uma lasanha ou pizza para o cinema! QUE POSER! Garfield – Fora de Casa é mais um clássico memorável, cheio de referências e muita fome. Apesar de tardia, essa crítica é para encorajar você que ainda não assistiu ao longa correr para o cinema (ou streaming, quando ele já tiver saído de cartaz).

Cartaz Garfield

A mais nova animação de um dos gatos mais divertidos dos quadrinhos, dirigida por Mark Dindal, traz muita risada e emoção. A história é envolvente, com personagens novos e os já amados vivendo uma aventura que parece ter saído de algum livro policial.

Garfield (Chris Pratt) e Odie (Gregg Berger e Harvey Guillén) se veem em apuros dignos de uma segunda-feira quando Jinx (Hannah Waddingham) os sequestra para atrair a atenção de Vic (Samuel L. Jackson), pai desaparecido do gato laranja. O que ela quer? Tem cara de vingança, cheiro de vingança, som de vingança, mas ela diz que não é vingança.

Para desespero de Jon (Nicholas Hoult), pai, filho e o cachorro saem em busca de pagar a dívida de Vic (que, por sinal, é beeeeeeeem grande): eles deveriam roubar leite da Fazenda Lactose, lugar que tem um passado para Jinx e Vic. Eles se veem, então, diante de um desafio considerável, principalmente quando falamos de um gato como Garfield, um gato doméstico acostumado aos maiores luxos que um humano pode conceder.

Uma das frases mais icônicas do filme, em relação a este blog, pelo menos, foi quando o Garfield fala que, se estava dando tudo errado, deveria ser segunda-feira, e outro responde que, na verdade, era uma quinta-feira. Qual é a das quintas?

Além de um elenco de peso, toda a equipe da produção é premiadíssima. A combinação dos fatores faz com que o filme tenha referências super atuais, um humor muito mais contextualizado com a realidade e, além disso, uma quebra de quarta parede notável. A própria animação é uma arte, trazendo um show de ambientação, iluminação, figurino, explosões e um 3D belíssimo.

Olha que fofuuuura essa carinha…

É comédia, ação, drama, é sobre família e para toda a família. De segunda a sexta, esse é um filme sexta-feira à noite, com certeza! Vale a pena dedicar minutos de vida cercado de pizza e lasanha e doces para assistir a Garfield – Fora de Casa.