Brasil no Oscar: veja como foi a coletiva de imprensa de Ainda Estou Aqui

“Com certeza, [O OSCAR] foi muito melhor que o de 99” (SALLES, Walter)

Ainda sob os efeitos etéreos do resultado do Oscar 2025, Walter Salles, Fernanda Torres e Selton Mello participaram de uma coletiva de imprensa no dia seguinte, na segunda-feira (3 de março), e a gente estava lá para conferir tudo.

Coletiva de imprensa Ainda Estou Aqui – 3 de março de 2025

Eles estão muito felizes – ÓBVIO -, mas também estão muito cansados. Não foram poucas as vezes que o Selton e a Fernanda pediram um café e disseram que, depois dessa ultramaratona de divulgação do filme, eles precisam voltar para casa e dormir. Fernanda até brincou falando que, agora, quer fazer gastronomia e gravar um programa, num lugar paradisíaco, em que eles vão avaliar os pratos e não precisarão fazer mais nada.

Walter comentou que perdeu o papel com seu discurso e precisou improvisar na hora que recebeu a estatueta. No entanto, ele fez um resumo para nós e frisou que, no final, ele falaria em português BR algo como “Viva a democracia!” e “Ditadura nunca mais!”.

Reforçaram, também, a importância de filmes como esse e outros ganhadores, como No Other Land, brindando o mundo com assuntos importantes que não podem ser esquecidos. Além de realçar a importância do cinema independente que ganhou um grande destaque nesta edição do prêmio.

Infelizmente, não houve tempo para responder a pergunta que eu enviei, mas, indiretamente, Selton Mello respondeu quando contou sobre os efeitos que essa avalanche Ainda Estou Aqui trouxe para o cenário do cinema brasileiro: comentou sobre jovens sonhadores que, agora, decidiram estudar cinema porque viram que é possível seguir os seus sonhos.

É evidente o recado que tudo isso deixa para o mundo: a história da família Paiva não será esquecida, está viva, como algo que não pode mais se repetir. Em um momento tão crítico como o que vemos se desenrolando no cenário mundial, a mensagem é clara.

Para mim, particularmente, quando assisti ao filme e escrevi minha crítica aqui, sonhava com prêmios, mas não imaginava a repercussão que o longa teve no mundo todo. Minha alegria com tudo isso é imensa! Meu TCC da faculdade de jornalismo falou sobre um filme vencedor de Oscar que foi uma adaptação de livro (Spotlight) e também trazia para a luz um cenário que deveria ser combatido.

Não deixemos de falar sobre Ainda Estou Aqui, sobre histórias que precisam estar vivas para não se repetirem, sobre sonhos que também precisam estar vivos e se realizando pelos jovens e pelos velhos! Obrigada, Walter, Fernanda, Selton e todos que fizeram isso acontecer!

Texto publicado originalmente no portal Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2025/03/04/brasil-no-oscar-veja-como-foi-a-coletiva-de-imprensa-de-ainda-estou-aqui/

Ainda estou aqui – Voltando à história daqueles que nunca voltaram

O cinema brasileiro nunca foi muito prestigiado em minha casa e cresci sem grande interação com os filmes nacionais. No entanto, Ainda estou aqui (do diretor Walter Salles) mudou completamente minha concepção da cinedramaturgia brasileira. Não é à toa o que tem-se dito sobre esse filme e eu faço questão de compartilhar minhas impressões do que vi, apesar de ser difícil explicar em palavras todo o sentimento que o longa passa.

Se você se incomoda de não receber resposta de um filho, amigo ou cônjuge cinco minutos após o envio da sua mensagem no WhatsApp, você não consegue imaginar o drama de uma família que não recebeu notícias sobre alguém que um dia saiu de casa e nunca mais voltou.

O chão se abriu sob os pés de Eunice Paiva (Fernanda Torres) quando seu marido e ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello) foi convidado a dar um depoimento para os militares em 1971 e nunca mais retornou. Com o endurecimento da Ditadura Militar no Brasil, esse era o destino de quem poderia ter um mínimo de suspeita sobre associação dita criminosa, situação retratada no filme com detalhes e brilhantismo.

O drama causa um sentimento de impotência, de expectativa. Quem conhece um pouco de história sabe o final, mas você se envolve com os personagens (com as pessoas) de tal modo que é impossível não se sensibilizar com a dor de alguém que viu seu mundo desabar e precisa, sozinha, se reinventar para cuidar da família enquanto espionam, prendem e fazem perguntas.

Fernanda Torres no papel da protagonista se entrega totalmente e o resultado é o mais puro cinema, quando, sem fazer monólogos, você enxerga a alma da personagem. Vemos em cena uma mulher forte, que não desistiu de lutar por sua família quando seu grande amor desapareceu. Lutou também para que houvesse uma resposta, que conseguiu apenas mais de 20 anos depois.

Ambientado na década de 1970, o filme tem uma fotografia impecável, com um jogo de câmeras que conta a história junto com a História. Cenários e figurino retratam com fidelidade cada momento da trama e a trilha sonora liberta memórias, cheias de super hits da década e do próprio momento de perseguição política, com música original de Warren Ellis.

A produção, baseada no livro biográfico de Marcelo Rubens Paiva (um dos cinco filhos do casal), ressalta, ainda, a relevância de se falar sobre o assunto. Há inúmeras pessoas que passaram pelo mesmo drama e prosseguem sem informações consistentes, há algozes que nunca foram devidamente punidos. O mais importante que destaco é: não podemos repetir isso, jamais!

Chorei, sim, mas, principalmente, mergulhei na história. Esse filme faz isso com você: te prende do começo ao fim, como se alguém desabafasse para você em uma tarde. Esse é um absolute cinema brasileiro que vale uma sexta-feira no final da tarde, quando você se desliga do mundo para desfrutar de momentos que importam com quem você ama e está pronto para se emocionar com fatos e refletir sobre a vida.

Crítica publicada por mim no site do nosso parceiro Terra Nérdica: https://terranerdica.com.br/index.php/2024/10/21/critica-ainda-estou-aqui/