Depois da tempestade vem a bonança? Não para os Desafiantes de Yuvalin! Confira o novo capítulo do diário de Helga Iris, a sereia druida.
Yuvalin é uma cidade forte. As garras corrompidas da Tormenta atravessaram a nossa alma, mas cá estávamos os sobreviventes para recomeçar.
Na Guilda dos Mineradores, Ezequias estava com olhos vagos e, no meio de todo o burburinho na sala, ele pediu silêncio e que ficássemos apenas ele e nós, os Desafiantes de Yuvalin. Colocou as mãos na cabeça e desabou, começou a chorar.
Ficamos em silêncio por alguns instantes e Edward se aproximou do amigo, ainda quieto, para consolá-lo. Eu estava de cabeça baixa e fazendo carinho na Noah, ela sentia a amargura em todos e também chorava baixinho. Levantei a cabeça e vi a cena. Então, a incentivei a ir tentar levar consolo também, afinal, animais têm essa incrível capacidade de nos animar.
Não adiantou muito, apesar de ele ter parado um pouco de chorar e voltado a falar. Ele fez carinho em Noah por uns instantes e desabafou. Achava que, se tivesse ficado na cidade, em vez de ir conosco para as Minas Heldret, ele poderia ter evitado algo. Tentei argumentar com ele, pois pensar nos “e se…” não levaria ninguém a lugar algum. O passado não pode ser mudado.
Edward também argumentou, falando sobre os verdadeiros culpados. O peso da liderança, que eu mal comecei a sentir, recaía dolorosamente sobre os ombros de Ezequias. Fatalmente, ele dizia, a culpa seria atribuída a ele. Em sua ausência, pequenos relatos chegaram sobre coisas estranhas por toda a cidade. Ele acreditava que poderia ter feito algo se estivesse ali.
Só venceríamos, de verdade, quando a Tormenta fosse destruída. Precisávamos encontrar a tal ferramenta-artefato. No entanto, ainda havia muito o que fazer na cidade antes de voltarmos às Minas. Sugeri que iniciássemos o mais rápido possível um plano de contingência, para a reconstrução de Yuvalin.
Nisso, eis que Peter Vahrim entra pela porta da sala de Ezequias. Eu tomei um susto, obviamente. Era a última pessoa que eu esperava ver naquele momento e situação. Mas foi ele a quem nosso chefe recorreu para designar funções para nós. Conhecendo o “Senhor P.”, achei melhor me manter focada em fazer carinho na Noah e não olhar tanto para ele.
Iríamos ajudar em diversos setores antes do funeral coletivo e do memorial em homenagem às vítimas. Peter me designou para ir até o Templo de Lena, a deusa criança, Deusa da Vida, para cuidar dos feridos. Edward, Kroll, Toshinori e Trovão da Tormenta foram para o setor de redução de danos, para encontrar sobreviventes nos escombros. Stefan e Joseph iriam para o setor de psicologia para animar aqueles que estavam sofrendo.
Só na cabeça do Peter, em uma situação delicada como essa, delegar uma função tão absurda ao Stefan. A função em si não era absurda, o Stefan sim. Ràthania ajudaria com ilusões, mas, ainda assim, não fazia o menor sentido. Joseph fez uma cara de nojo e ninguém poderia tirar a razão dele. Esperava, com toda sinceridade, que Stefan não piorasse tudo.
Cheguei ao Templo e, rapidamente, uma clériga me abordou me perguntando se eu era curandeira. Fiz que sim com a cabeça e ela me direcionou para um galpão lotado. Muita gente ferida física e, principalmente, emocionalmente. Comecei a andar pelos corredores e a conversar com algumas pessoas. Olhava nos olhos delas para checar o quanto elas precisavam de ajuda. Levei Noah para brincar com algumas crianças, tentando fazer com que houvesse mais esperança naquele cenário de guerra.
Ao cuidar de uma pessoa, percebia que outras pessoas ao redor se sentiam melhor. Vi que fazia a diferença ali. Conseguia inspirar os feridos e outros curandeiros a cuidar uns dos outros. Apesar de ainda encontrar muitas pessoas bem machucadas, mentalmente, as pessoas pareciam mais dispostas e menos tristes.
Ao final do dia de muito trabalho, Ezequias nos convocou de volta à Guilda. Ele nos informou sobre o funeral coletivo no dia seguinte pela manhã, no Parque Normandia. Também pediu que Edward e eu levássemos palavras de consolo ao povo. Prontamente, me coloquei à disposição.
Ele tinha, ainda, uma notícia bem ruim para nos passar e isso se mostrou claramente quando ele tirou os óculos e seus olhos vermelhos demonstraram cansaço. O segundo andar das Minas Heldret foi completamente explodido. Provavelmente, aquele a quem a jovem havia nos pedido para encontrar, que Ezequias expulsou da Guilda, deve ter ficado com remorso. Eu achava que Toshinori tinha explodido todas as bombas, mas não foi o caso.
O chefe nos agradeceu mais uma vez e nos dispensou até o dia seguinte. Me despedi de todos e saí acompanhada da Noah. Dei uma volta pela cidade para ver como tudo estava e, claro, fui procurar pelo Goro. Precisava saber se ele estava vivo. Passei tanto tempo cuidando de todos, que ele estava em meus pensamentos, mas não pude ir vê-lo antes.
De longe, vi que a oficina não existia mais. Eu gelei. Foi como se tivessem me dado um soco no peito. Meus joelhos já ameaçavam fraquejar quando avistei uma silhueta ajoelhada diante do antigo prédio da Kanpeki. Consegui identificar que era Goro, com seus cabelos longos e presos em um rabo de cavalo, todo machucado e com as roupas rasgadas. Ele estava fazendo preces a Lin-Wu, em total reverência.
Eu me aproximei, me mantive em silêncio e em estado de reverência também. Em apoio. Ele se assustou um pouco com a aproximação de alguém, mas, quando notou que era eu, ele começou a chorar e voltou ao que estava fazendo. Apenas sussurrou que o seu mestre não havia sobrevivido.
Imediatamente, as lágrimas também me vieram aos olhos e tentei consolá-lo com um abraço. Ele me disse que levaria o caixão de seu mestre no funeral e me perguntou se eu estaria lá. Também não quis que eu tratasse de suas feridas, ele só queria ficar sozinho e até meu abraço, ao me despedir, não foi tão bem recebido. Enquanto eu o deixava ali, fazendo suas preces, meu coração doía. Fui, então, em direção ao Distrito do Carvão, observando e ajudando como podia quem eu encontrava pelo caminho.
O dia foi longo e doloroso. Precisava renovar minhas forças e, assim como fiz diante de Lin-Wu momentos antes, agora, estava diante da minha deusa, Allihanna, suplicando que houvesse descanso para corpo e alma. Não só meu, mas de todos aqueles que sofriam naquele momento. Por sua graça, adormeci.
De manhã, uma procissão se encaminhava para o Distrito da Forja. Enquanto eu andava até o Parque Normandia, começou a chover novamente. Dessa vez, pelo menos, era só chuva. Nesse momento, todos concordamos silenciosamente que aqueles que se foram não voltariam mais.
O Parque estava lotado, muito mais que quando houve o discurso de Ezequias. Parecia ter tanto tempo desde aquele episódio. Era impensável que estaríamos naquela situação agora. Rostos machucados, gente rica e gente pobre… todos estavam ali. Reconheci algumas figuras e a grande união de toda a cidade.
Ezequias discursou sobre o palco. Suas palavras eram sobre amor, sobre o luto que é o amor que perdura. Também falou sobre vingança contra a Tempestade Rubra.
Enquanto fazia seu discurso, soldados entraram carregando caixões, quase que a perder de vista. Eles e outros cidadãos levavam os caixões para a forja, o coração de Yuvalin. Havia um grande coral para homenagear os mortos naquele momento organizado por Joseph. Eles cantaram logo após o discurso de Ezequias e antes que ele me chamasse para falar.
Era minha vez de consolar o que era inconsolável.
Continue aqui no Blog para saber o que acontece nos próximos capítulos desta jornada.
Até breve!
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