A viagem rumo ao tal leilão continua no navio e os Desafiantes de Yuvalin têm alguns encontros bem aleatórios pela frente.
Saí correndo do quarto, me segurando para não cair com o balanço do navio, depois daquela explosão. Cheguei no convés gritando para todos para descobrir o que estava acontecendo. Aparentemente, o alarde todo era porque ladrões abordaram o barco sorrateiramente.
Tomei um susto quando uma aura translúcida em formato de lobo cobriu o Kroll, com um sorriso cheio de dentes. Ele já estava batendo – e eliminando – os bandidos. Eu podia ver bem pouco no escuro, mas a cena de um carinha sendo cortado ao meio foi bem clara para mim.
Do meu lado, tinha um outro carinha tremendo e olhando para mim em desespero. Gritei para a equipe para que eles cuidassem dos ladrões enquanto eu procurava por problemas. Com “problemas” eu quero dizer Stefan. Pelo tamanho do barulho que eu ouvi, era ele. Só que, no escuro, eu precisava encontrá-lo ainda.
Não foi tão difícil, a propósito, uma vez que o capitão gritava xingamentos contra alguém que tinha destruído parte do navio. Não foi difícil adivinhar. Eles estavam próximos ao leme. Subi correndo as escadas naquela direção e encontrei o inventor balbuciando palavras ininteligíveis, com os olhos revirados, enquanto o capitão continuava gritando impropérios.
A batalha no convés já estava animada e eu tinha que acalmar o capitão e cuidar do louco. Ouvi o alaúde do Joseph, os gritos de ordens do Edward e um uivo de lobo. Por uns instantes, gelei imaginando que a Noah estivesse no barco. Essa sensação deu um nó na minha cabeça, até eu me lembrar do Kroll.
Ó minha deusa! Ó Allihanna, roguei por paciência enquanto tocava a testa do Stefan, purificando-o da sua loucura. Pedi paciência porque se ela me concedesse forças, eu acabaria com o inventor. Saí de perto dele para visualizar o resto da batalha no convés do navio.
Tudo estava sob controle. Desci as escadas e encontrei um ladrãozinho imobilizado, pelos menos, na proa, implorando para que não o matássemos. Então, os meninos começaram a interrogar e eu me aproximei do grupo. Como ele só foi ali para roubar a gente mesmo, a gente tomou de volta o que ele roubou e mais algumas coisinhas interessantes.
Kroll levantou o machado porque, aparentemente, ele teria sido roubado por um dos gatunos. Edward tentou controlar a situação para não matar o ladrão. Nisso, Toshinori começou a reclamar com o Stefan porque ele explodiu parte do navio. Eu cruzei os braços e fiquei assistindo a equipe decidir, primeiro, que assunto queriam priorizar e, depois, o que fazer com o prisioneiro.
Finalmente, o golem de vidro, Vitrúvio, saiu de sua cabine e perguntou o motivo de tanta algazarra, estranhamente bem-humorado. Ele não queria mais uma boca para alimentar no barco, então, eu perguntei sobre a existência de um calabouço, apenas para que o ladrão não fosse arremessado na água. Então, ele pegou o gatuno, colocou-o sobre os ombros e desceu as escadas para dentro do navio. Só ouvimos uma risada sua, bem baixinha, depois de alguns segundos.
Retornei aos meus aposentos, concluí a carta para Goro e chamaria alguns pássaros pela manhã para enviar para ele e Silena. Depois do incidente, só queria relaxar mais um pouco e li mais uma parte daquele livro que o Edward trouxe de sua viagem, aquela quando ele perdeu um olho. Fugindo das Águas de Sempre me chamou a atenção pelo título, mas, definitivamente, esse autor não conseguiu encaixar bem o enredo e ficou faltando algo relevante para tornar a história marcante. Se eu não tiver nada para fazer depois, talvez termine de ler. Naquela noite, bastou ler por cinco minutos e eu apaguei.
Pela manhã, senti que as águas por onde passávamos já eram diferentes. Deixamos o Rio Panteão e entramos em território deheoni, pelo Rio Nerull. Mesmo nascida no Reino de Deheon, não me senti em casa, porque nesse rio eu nunca nadei. Estava bem longe de Villent, aliás. É óbvio que eu não ia perder a oportunidade de conhecer mais profundamente essas águas. Antes que Azgher estivesse pouco acima do horizonte, já tinha dado um longo passeio e conhecido vários peixes e outros animais.
Retornei ao navio completamente renovada e serena e me sentei encostada à amurada na proa, apreciando a paisagem e reverenciando Allihanna por toda sua glória e majestade. Aos poucos, um a um dos meus companheiros surgiram no convés e trocamos algumas amenidades matinais. Toshinori e Edward tinham o péssimo hábito de urinar na água sobre a ponta da proa, enquanto tinham conversas mais íntimas. Eles passaram bastante tempo juntos, não é?
Em algum momento daquela manhã, Edward me contou individualmente que ele estava tendo um sonho de forma bem corriqueira, o mesmo sonho. Ele me perguntou se eu poderia orientá-lo sobre o que fazer ou se conseguiria interpretar, já que eu estava mais ligada à sabedoria dos deuses.
Falei que sonhos não eram minha especialidade, mas que eles poderiam ter diversos significados. Expliquei que sonhos poderiam ser reflexos de sua própria mente tentando criar possibilidades de coisas que não aconteceram, ou que poderiam ser lembranças, ou que poderiam ser sinais dos deuses, uma visão, um recado enviado por alguém. Como ele estava em busca de ser um guardião da realidade, ele tinha a bênção de vários deuses, o que talvez pudesse significar um sinal. Aconselhei para que ele buscasse ter contato com os deuses, afinal, eles não estavam tão distantes que não pudessem responder a quem os buscasse.
O senhor Vitrúvio também chegou ao convés e entrou em um duelo musical com Joseph. A música foi até legal e eu solfejei uma melodia junto, mas bem baixinho, enquanto olhava a vida marinha abaixo.
Nesses dias no barco, tive que conciliar também o humor dos meus amigos, pois Toshinori estava abstêmio e Joseph nem aguentava mais tocar o próprio alaúde. Stefan sugeriu que o bardo, que também sabia criar algumas coisas, fizesse cerveja para o paladino. Mas o gnomo não entendeu o recado e não fez.
Perto das Quedas de Hynn, retornei ao navio porque o barulho era muito alto e a correnteza estava bem forte. Bem a tempo de impedir de desviarmos nosso caminho para uma caverna que TALVEZ tivessem dragões. Os meninos estavam muito empolgados para ir até lá e é óbvio que eu disse que na volta a gente passaria por lá. Estava curiosa para saber se Edward conhecia algo sobre o lugar, já que ele era meio-dragão. Mas, infelizmente, nenhum parente dele.
As águas próximas ao Bosque dos Trolls estavam meio turvas e espessas. Assim, achei melhor ficar no barco até a situação melhorar. Ao longe, numa das margens, algo se moveu de uma pedra entrando na água. Foi muito rápido! Não deu para identificar o que era, mas eu já fiquei alerta para caso tivéssemos um encontro perigoso. No entanto, não vi e nem senti mais nada.
De repente, uma criatura alaranjada com um tentáculo para frente, meio espinhoso, apareceu no convés. O carrasco de Lena era uma salamandra imensa, com couro rugoso, pernas atarracadas e cauda muito grossa. Ficava lambendo o focinho o tempo todo. Ele estava pronto para comer algo, mas desde que não fôssemos nós esse algo, estava tudo bem.
Assista ao vídeo sobre essa parte da história no canal do Qual é a do RPG?: https://youtu.be/uqVwn0GmeYc
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Até breve!
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